Mensagens

A mostrar mensagens de 2004
Acordar tarde

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte
procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer
irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

Al Berto, Horto de Incêndio
Litania para o Natal de 1967

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos pedir contas do nosso tempo

David Mourão-Ferreira, Lira de bolso
Natal, e não Dezembro


Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.



David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal
Saíu Para A Rua
Carlos Tê / Rui Veloso


Saiu decidida para a rua
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro
Tantos anos tantas noites
Sem sequer uma loucura

Ele saiu sem dizer nada
Talvez fosse ao teatro chino
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho

Tantos anos tantas noites
Sem nunca sentir a paixão
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão

Pôs um pouco de baton
E um leve toque de pintura
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu ao rosto a candura

Saiu para a rua insegura
Vageou sem direcção
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura



À Noite Dissolve os Homens

A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus …
Pombo-Correio

Os garotos da Rua Noel Rosa
onde um talo de samba viça no calçamento,
viram o pombo-correio cansado
confuso
aproximar-se em vôo baixo.


Tão baixo voava: mais raso
que os sonhos municipais de cada um.
Seria o Exército em manobras
ou simplesmente
trazia recados de ai! amor
à namorada do tenente em Aldeia Campista?


E voando e baixando entrançou-se
entre folhas e galhos de fícus:
era um papagaio de papel,
estrelinha presa, suspiro
metade ainda no peito, outra metade
no ar.


Antes que o ferissem,
pois o carinho dos pequenos ainda é mais desastrado
que o dos homens
e o dos homens costuma ser mortal
uma senhora o salva
tomando-o no berço das mãos
e brandamente alisa-lhe
a medrosa plumagem azulcinza
cinza de fundos neutros de Mondrian
azul de abril pensando maio.


3235-58-Brasil
dizia o anel na perninha direita.
Mensagem não havia nenhuma
ou a perdera o mensageiro
como se perdem os maiores segredos de Estado
que graças a isto se tornam invioláveis,
ou o grito de paixão abafado
pela …
Aos que vierem depois de nós

Bertolt Brecht
(Tradução de Manuel Bandeira)

Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, …
La bastille

Mon ami, qui croit que tout doit changer
Crois-tu le droit d'aller tuer les bourgeois
Si tu crois encore qu'il nous faut descendre
Dans le creux des rues pour monter au pouvoir
Si tu crois encore au rêve du grand soir
Et que nos ennemis, il faut aller les pendre

Dis-le toi désormais
Même s'il est sincère
Aucun rêve jamais
Ne mérite une guerre
On a détruit la Bastille
Et ça n'a rien arrangé
On a détruit la Bastille
Quand il fallait nous aimer

Mon ami, qui croit, que rien ne doit changer
Te crois-tu le droit de vivre et de penser en bourgeois
Si tu crois encore qu'il nous faut défendre
Un bonheur acquis au prix d'autres bonheurs
Si tu crois encore que c'est parce qu'ils ont tort
Que les gens te saluent plutôt que de te pendre

Dis-le toi désormais
Même s'il est sincère
Aucun rêve jamais
Ne mérite une guerre
On a détruit la Bastille
Et ça n'a rien arrangé
On a détruit la Bastille
Quand il fallait nous aimer

Mon ami, je crois que tout peut…
Acordar tarde

Tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

Al Berto
Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.


Fernando Pessoa
5/6-2-1931
A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora ? murmura a bunda ? esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
rebunda.

Carlos Drummond de Andrade
Língua portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac
Pequenas considerações sobre o futuro das coisas

Uma ponta de lápis que se cravou na minha mão
os pássaros que voam para sul no Inverno.
O nosso Inverno que é Verão do lado de lá do mundo
os oceanos que compõem a maior parte da Terra.
a vida das árvores
a mulher
o feto ainda incógnito que nasce no útero
as estrelas que vemos no céu
depois de mortas.
O que é Eterno
o pó que os nossos passos levantam
as memórias
a História
os Homens
uma pegada na lua
o fundo do mar
um soneto de Antero
o meu irmão
as ondas inesgotáveis que me fazem respirar
a voz de Jacques Brel cantando Les Marquises.
Os cabelos de uma mulher contornando-lhe o pescoço.
A musica que ecoa do contacto das coisas.
O fumo de um cigarro
o contacto da tua pele na minha
as mãos
um golo num copo
e um mundo líquido
a incerteza dos dias e a minha morte
no futuro
os livros que li
os que não li
as palavras que não pude escrever aqui
as mares por influência da lua
e a vida por influência do sol
e as estrelas por
vontade do Universo
e…
composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa

(Fragmentos)

10.

"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados."

poema de haver erro em dia novo
abriu os dedos ao devir da palavra como num rolo enxugou as tintas frescas da parede lamentando ter perdido a cedilha do tempo. eram 10 horas. errava ainda a par da primavera, o outono chiando, num descanso taciturno, atrapalhou-se com os minutos, enfiados nas algibeirase foi-se o dia começava amanhã novo não chegara ainda o tempo das vírgulas. Morreu num poema de haver erro em dia novo enquanto tentava atravessar o ( livro ) de ponto. Mariana Matos
A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demor…
Não Há Estrelas No Céu
Carlos Tê / Rui Veloso


Não há estrelas no céu a dourar o meu caminho,
Por mais amigos que tenha sinto-me sempre sozinho.

De que vale ter a chave de casa para entrar,
Ter uma nota no bolso pr'a cigarros e bilhar?


A primavera da vida é bonita de viver,
Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover.
Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar,
Parece que o mundo inteiro se uniu pr'a me tramar!

Passo horas no café, sem saber para onde ir,
Tudo à volta é tão feio, só me apetece fugir.
Vejo-me à noite ao espelho, o corpo sempre a mudar,
De manhã ouço o conselho que o velho tem pr'a me dar.

Vou por aí às escondidas, a espreitar às janelas,
Perdido nas avenidas e achado nas vielas.
Mãe, o meu primeiro amor foi um trapézio sem rede,
Sai da frente por favor, estou entre a espada e a parede.

Não vês como isto é duro, ser jovem não é um posto,
Ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto.
Porque é que tudo é incerto, não pode ser sempre assim,
Se n…
Saudade em Barcos Pretos

Relembra-me o toque dos teus passos
no soalho da nossa casa.
Talvez esta saudade doesse menos;
Talvez a porta se voltasse a abrir e
Fosses (mesmo que apenas)
Um viajante, um hóspede,
um amigo, a quem,
Pudesse contar os meus segredos.

Relembra-me o som da tua voz ao telefone
A desejar-me os bons anos.
Os parabéns. O Feliz Natal.
Talvez a tua ausência desaparecesse.
Talvez a minha solidão diminuísse.
Relembra-me a cor do mar pelos teus olhos,
Os barcos, as cidades,
As pessoas,

Relembra-me os passeios, as lagoas,
os portos de chegada
O teu abraço.
Relembra-me a vida como era,
Talvez eu pudesse escrevê-la e mudá-la:
- Partidas e viagens nunca ausentes,
A solidão trocada por encontro.
E tudo era feliz. Claro e constante.

Não mais
partidas vãs que só desgraçam
A dor, que vem pelo dorso da minh´alma.
Não mais
Morrer-me a mim em cada instante,
Levando-me a saudade em barcos pretos,
A todos os portos que conheceste.

Mariana Matos
O Menino da sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
? Duas, de lado a lado ?,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa
«Trova do Vento que Passa»

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale …
Para o João Henrique Magalhães

AMIGOS!Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências?
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora…
A Sílaba

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa,é certo:uma vogal,

uma consoante,quase nada.

Mas faz-me falta.Só eu sei

a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender

do frio de janeiro,da estiagem

do verão.Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

de Ofício de Paciência

Eugénio de Andrade
A Funda

Arranquei à pele do peito,
com os dedos ensangüentados,
um retângulo perfeito
de cem centímetros quadrados.

Estendi-o ao sol a curtir
a haurir uns raios que projetam
certo incógnito elixir
que os detectares não detectam.

Depois de bem seco e rijo
prendi-lhe, nos quatros cantos,
quatro nervos desses tantos
com que me franjo e me aflijo.

Eis-me de funda na mão
no mais ereto dos montes,
devassando os horizontes
com os pés bem presos no chão,
as pernas em ângulo agudo
para assentar com firmeza
nessa dúvida de tudo
tão certa como a certeza.

Só, entre os fundibulários,
no centro dos meus domínios,
como o pastor dos Hermínios
na defesa dos contrários,
ponho na funda um poema
de agrestes arestas vivas,
e em rotações sucessivas
de celeridade extrema,
com todo o vigor do braço,
como o vento em torvelinho,
lanço o poema no espaço
no seu exato caminho.

António Gedeão
Take This Waltz

Now in Vienna there's ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning
And it hangs in the Gallery of Frost
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz with the clamp on its jaws
Oh I want you, I want you, I want you
On a chair with a dead magazine
In the cave at the tip of the lily
In some hallways where love's never been
On a bed where the moon has been sweating
In a cry filled with footsteps and sand
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take its broken waist in your hand

This waltz, this waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea

There's a concert hall in Vienna
Where your mouth had a thousand reviews
There's a bar where the boys have stopped talking
They've been sentenced to de…
Um poema para o dia de ontem

Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexactas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh! não se esqueçam
Da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima
Rosa hereditária
A rosa radioactiva
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atómica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vínicos de Morais
Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

José Carlos Ary dos Santos
Ecloga

Sonhei
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

Nuno Júdice
A Boneca

Deixando a bola e a peteca
 Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: "É minha!"
? "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
 E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
oltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca...

Olavo Bilac
O sol já se escondeu

O sol já se escondeu...
Precisamente quando,
feliz,
eu desatei a cantar.
(Só por feliz eu cantei).

Agora quero acabar,
que já me dói a garganta,
mas vou ainda cantando,
tremendo
dar por mim de novo triste
assim que esteja calado.
(...Como se a minha Alegria
nascesse de eu ter cantado).

Sebastião da Gama
SONETO DO CATIVO


Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão Ferreira,
in Os Quatro Cantos do Tempo

Imagem
O que é que eu posso dizer sobre o desaparecimento desta grande Senhora?
Nada. Para para além do que ela própria foi dizendo ao longo da sua obra.
"A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse"
De Volta ao Carlos Tê e ao Rui Veloso

Trovas Vicentinas

Vós que vos ides por ganância
Debaixo da capa do cruzado
Buscando no incerto e na distância
A mina delirante do el dourado

Vós que deixais só na rectaguarda
Um farto giniceu desamparado
Não sentis testa que vos arda
Durante o sono repousate do soldado

Ouvi este lado trovador
Por feitos de além - mar pouco tentado
Não se deixa uma esposa sem amor
Com o trevo da mocidade eriçado

E vê-las no poleiro das janelas
Gastando seus furores em vãs intrigas
É vê-las nas ribeiras com as barrelas
Contando oq ue só deus sabe às amigas

Quanta malícia mal ardida
Tangem seus olhares pelas esquinas
Soubesseis os sorrisos de fugida
Que delas merecem minhas rimas

E vieis que melhor que a riqueza
É ter alguém à noite na cama
Que o diga a presunçosa e vã nobreza
Que goza a especiaria ao pé da dama

Por isso se as testas vos ardem
No lume verrinoso do adultério
Às línguas viperinas que vierem
Dizei que ardem pela grandeza do império
À vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfa-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia,
A gente esquece sempre o bom de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!

Florbela Espanca
Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos

como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam
como estas árvores que gritam
em bebedeiras de azul

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento
bichinho alacre e sedento
de focinho pontiagudo
que fuça através de tudo
no perpétuo movimento


Eles não sabem que o sonho
é tela é cor é pincel
base, fuste ou capitel
arco em ogiva, vitral

Pináculo de catedral
contraponto, sinfonia
máscara grega, magia
que é retorta de alquimista

mapa do mundo distante
Rosa dos Ventos Infante
caravela quinhentista
que é cabo da Boa-Esperança

Ouro, canela, marfim
florete de espadachim
bastidor, passo de dança
Columbina e Arlequim

passarola voadora
pára-raios, locomotiva
barco de proa festiva
alto-forno, geradora

cisão do átomo, radar
ultra-som, televisão
desembarque em fo…
Fio de vida

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.

Thiago de Mello

Para desanuviar do TÊ e do RUI e a pedido de várias familias.
Trovas Vicentinas
Carlos Tê / Rui Veloso

Vós que vos ides por ganância
Debaixo da capa do cruzado
Buscando no incerto e na distância
A mina delirante do el dourado

Vós que deixais só na rectaguarda
Um farto giniceu desamparado
Não sentis testa que vos arda
Durante o sono repousate do soldado

Ouvi este lado trovador
Por feitos de além - mar pouco tentado
Não se deixa uma esposa sem amor
Com o trevo da mocidade eriçado

E vê-las no poleiro das janelas
Gastando seus furores em vãs intrigas
É vê-las nas ribeiras com as barrelas
Contando oq ue só deus sabe às amigas

Quanta malícia mal ardida
Tangem seus olhares pelas esquinas
Soubesseis os sorrisos de fugida
Que delas merecem minhas rimas

E vieis que melhor que a riqueza
É ter alguém à noite na cama
Que o diga a presunçosa e vã nobreza
Que goza a especiaria ao pé da dama

Por isso se as testas vos ardem
No lume verrinoso do adultério
Às línguas viperinas que vierem
Dizei que ardem pela grandeza do império
Mulher De Armas
Carlos Tê / Rui Veloso

O meu amor
Quando se foi
Pela barra desse rio
Disse que vinha
Mas não veio mais
Trocou-me por um navio

Ao meu amor
Não lhe perdôo
Com ele não me ter levado
Sou mulher de armas
Queria ver mundo
Conquistá-lo ao seu lado

Aqui estou eu viúva e orfã
Meu destino é carpir
O dele é nobre
Navega e descobre
E eu nada tenho a descobrir

O meu amor
Onde está ele
Trocou-me por uma quimera
É um mundo de homens
A fazer a guerra
E de mulheres sempre à espera

Ao meu amor
Mando lembranças
Quando sózinha me deito
Queria amar outro
Mas partiram todos
Não ficou nenhum de jeito

Refrão

Meu coração
Como estás tu
Trocado por um convés
Vê minhas armas
Já se calaram
E tu perdeste outra vêz

Quando me lembro
Como tu eras
Mais largo do que esse mar
O amor que tinha
Dei-o à toa
A quem o queria agarrar

Refrão
Praia Das Lágrimas
Carlos Tê / Rui Veloso


Ó mar salgado eu sou só mais uma
Das que aqui choram e te salgam a espuma

Ó mar das trevas que somes galés
Meu pranto intenso engrossa as marés

Ó mar da indía lá nos teus confins
De chorar tanto tenho dores nos rins

Choro nesta areia salina será
Choro toda a noite séco de manhã

Ai ó mar roxo ó mar abafadiço
Poupa o meu homem não lhe dês sumiço

Que sol é o teu nesses céus vermelhos
Que eles partem novos e retornam velhos

Ó mar da calma ninho do tufão
Que é do meu amor seis anos já lá vão

Não sei o que os chama aos teus nevoeiros
Será fortuna ou bichos-carpinteiros

Ó mar da china samatra e ceilão
Não sei que faça sou viúva ou não

Não sei se case notícias não há
Será que é morto ou se amigou por lá



Calmaria
Carlos Tê / Rui Veloso

Foi medonha a tempestade que a agulha quase enlouquecia
Era tal o negrume do céu que não havia noite nem dia
Já eu pensava na morte fez-se súbita acalmia
Que nos deixou à sorte sem vento na maresia
Relembrei velhos pilotos relatos destas andanças
Piores que certos maremotos às vezes só certas bonanças
Reparamos os danos nas velas que o vento havia de chegar
Mas foram passando os dias e nós sem nada mais a inventar

E era medonha a calmaria

Segui o vôo de albatroz fisguei peixe-voador
Cantei para ouvir a minha voz recapitulei cada amor
Li a noite constelada na folha do firmamento
Vi a várzea azul semeada de àguas sem movimento
A mando do capitão fizemos procissão
Missa e novena cantada pescamos um tubarão
E depois de o cegar no convés com ele fizemos tourada
Mas do vento de feição é que ninguém sabia de nada

E era medonha a calmaria

Quase a dez dias de pasmo no alto mar sem aragem
Com o sol tisnando a prumo pus fim à minha viagem
Tão farto de calmaria pus …
Faena De Mar
Carlos Tê / Rui Veloso


Fiz-me à estrada de lisboa sem um chavo na algibeira queria aprender um ofício e fazer uma carreira
Vindo do ribatejo lá onde o touro se pega
Picado pela fome e a fugir da peste negra

Ao fim de três semanas vivia de caridade
Com a turma de mendigos que pedia pela cidade
Ouvi lêr um edital na rua dos tintureiros
A pedir gente de brega soldados e marinheiros

Pelo soldo pela comida sem medo de ir à aventura
Era mesmo essa a vida de que eu vinha à procura
Ao passar no cais de alfama vi grandes preparativos
Dei o nome ao escrivão e juntei-me aos efectivos

Aguenta toureiro ensaia a tua faena
O touro é sendeiro e escorrega muito a arena
Toureia o destino improvisa a tua finta
É sobre o joelho que melhor se tira a pinta

Veio o dia da largada ondulavam os pendões
Faltava gente à armada tiveram de ir às prisões
Arrebanhar voluntários entre a nata da escumalha
Rufiões e salafrários grandes barões da navalha

Havia choro no cais e despedidas sem fim
E eu triste e…
Cruzeiro Do Sul
Carlos Tê / Rui Veloso


Sou um pobre timoneiro
Na noite imensa do mar
A sul da minha solidão o cruzeiro
Luz no céu para me guiar
Lanterna de navegar
Alivia-me a pressão
Que o leme está a queimar
Estamos longe do destino
E eu não sei onde é que isto vai parar

Cruzeiro do sul

Lua não troces de mim
Tão longe de casa eu sei
O medo dança com as sombras
E eu vejo o que inaginei
Estou sózinho junto ao leme
Não é tempo de poetas
Já tombaram mais de dez
E nós ainda aqui às voltas
Procurando coisas que deus não fez

Cruzeiro do sul
Canção De Marinhar
Carlos Tê / Rui Veloso

Tome-se o astrolábio, meça-se a latura solar
Dê-se mais grau menos grau, conforme o balanço do mar

Imaginem-se latitudes invisíveis meridianos
Que a lenta ciência se apure nos astros e nos oceanos

Rume-se ao sul sidério e às indias orientais
Complete-se o planisfério com todos os novos locais

Proceda-se sempre de acordo como manda o regimento
Fazendo um diário de bordo por causa do esquecimento

Já conheço o sete-estrêlo que me guia e orienta
Hei-de vêr esses bazares de canela e de pimenta

Anote-se boca de rio cabo maré e monção
Costume de gente e feitio tudo fique em relação

E mais o que o medo inventar que o senso há-de aclarar
Assim se descreva e reúna em livro de marinhar

Ao mundo ache-se o centro tire-se até bissectriz
Navegue-se por fora e por dentro como se fosse um país

Alterem-se as dimensões nas cartas e nos roteiros
Até que ele caiba nas canções dos cafés de marinheiros

Já não oiço as sereias já sei traçar o azimute
Faltam poucas luas…
Lançado
Carlos Tê / Rui Veloso


Cometi crime de amor à morte fui condenado
Mas antes do cadafalso a um capitão fui chamado
Que partia para a guiné e me prometeu perdão
Se fosse numa galé e aceitasse a missão
De à sorte ser lançado na má terra do gentio
Sózinho e abandonado durante meses a fio

Entre o inferno e o algóz dançava meu triste fado
Medi os contras e os prós e escolhi ser lançado
E assim fui embarcado até às costa da guiné
E em terra fui deixado com biscoito medo e fé
Com ordem de haver língua com todas as criaturas
Saber das fontes do ouro e conhecer essas culturas

Refrão:
Fui lançado às feras o mato foi a minha casa
Não havia primavera nem outono
E era sempre um estio em braza

Venci as febres do mato e o veneno das cobras
Cativo levei mau trato paguei pelas minhas obras
Das gentes tornei-me amigo com artes que já nem sei
E ao fim de muitos meses era visita dum rei
Fiz-me amante de gentia com ela juntei fazenda
A vida até já sorria feliz era a minha emenda

O batel chegou um di…
Cabo Sim Cabo Não

Carlos Tê / Rui Veloso


Para lá do cabo não limite da criação
Fica o mar das trevas onde não foi mouro nem cristão
Vou rumar ao turbilhão de brumas e macaréus
Passá-lo é minha missão já me encomendei aos céus

Para lá do cabo não vou e voltarei ou não

A sul passei muitas léguas com o deserto a par
Anotei ventos e àguas na carta de marear
Até que surgiu outro cabo bramindo como um trovão
De treva cem vezes pior que a treva do cabo não

Para lá do bojador vou e voltarei ou não

Era um mar caldo de enxofre que rugia furibundo
Tragando barcas e homens até ao limbo do mundo
Estava guardado para mim ir buscar toda a coragem
Conter a bordo o motim e pôr de pé a marinhagem

Para lá do bojador vou e voltarei ou não

Passei a ponta medonha e o mar era só àgua e sal
Mas na costa mais areia e de vivalma nem sinal
Cabotamos mais abaixo ao correr da areia e do tempo
Rumo à estrela do sul para lá do cabo branco

Para lá do cabo branco vou e voltarei ou não

Um dia já tão cansado de cabo não…
Este é o segundo poema que vos deixo retirado do album "Auto da Pimenta", de Rui Veloso, edição comemorativa dos 500 anos dos Descobrimentos Portugueses. Conto aqui postar diáriamente, a partir de hoje, os restantes. Na verdade, este é o 1º tema do album sendo "São Miguel" o 2º. Por razões que, me parecem óbvias, alterei a ordem.

Para quem não se lembra, existiu à época uma enorme polémica acerca da escolha de Carlos Tê e Rui Veloso para escreverem estes textos. Muitos dos intelectuais e pseudo intelectuais, onde se enquadram, Carlos do Carmo, Simone de Oliveira, Ruy de Carvalho, Izabel do Carmo, Nuno da Câmara Pereira, José Hermano Saraiva, José Matoso, Jaime Nogueira Pinto e outros que agora não me lembro, achavam que se deveria editar um disco de fado. Por mim só posso dizer que ainda bem que assim não foi.


Sete Partidas

Carlos Tê - José S. Martins / Rui Veloso


Ouço uma voz que me canta velhas canções esquecidas
E embala o meu sonho num cais de sete partidas
Como…
São Miguel
Carlos Tê / Rui Veloso

A oeste de finisterra ficam as ilhas perdidas
Disse-me um corso galego que um dia as viu e perdeu
As velhas cartografias também o dizem assim
Como ter fortuna de as achar no mar oceano sem fim?

Vinha um dia das Canárias ao largo com vento a favor
Seguimos o voo das aves que tomamos por açores
Até que ouvi do mastaréu a voz rouca do gajeiro
Terra à vista lá ao longe no meio do nevoeiro

Ó que ilha tão formosa
Pisei ao sair do batel
Dei-lhe então nome de santo
Em dia de São Miguel
Imagem
Porque hoje é o Dia da Raça



Carlos Tê
Ode à Paz

Pela
verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa…
"Wish You Were Here"

So, so you think you can tell
Heaven from Hell, blue skies from pain.
Can you tell a green field from a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?
And did they get you to trade your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange a walk on part in the war for a lead role in a cage?
How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year,
Running over the same old ground.
What have we found? The same old fears.
Wish you were here...

Roger Waters (Pink Floyd) 1975
The Fletcher memorial home

Take hall your overgrown infants away somewhere

And build them a home a little place of their own
The Fletcher memorial
Home for incurable tyrants and kings

And they can appear to themselves every day
On closed circuit TV
To make sure they're still real
It's the only connection they feel
"ladies and gentlemen. Please welcome Reagan and Haig
Mr. Begin and Friend Mrs Thatcher and Paysley
Mr, Brezhnev and party
The ghost of McCarthy
The memories of Nixon
And now adding colour a group on anonymous Latin
American meat packing glitterati"

Did they expect us to treat them with any respect

They can polish their medals and sharpen their
Smiles, and amuse themselves playing games for a while
Boom boom, bng bang, lie down you're dead

Safe in the permanent gaze of a cold glass eye
With their favourite toys
They' ill be good girls and boys
In the Fletcher memorial home for colonial
Wasters of life and limb

Is everyone in?
Are you having a nice…
Imagem
A Origem do mal
Carlos Tê


Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa
(1931)

Imagem
Tinha guardado para "postar" hoje, daqui do "Central Business District" de Lisboa o poema que esta Mariana tresandando a maresia aqui nos deixou por isso algures entre Alfama e a costa do Castelo aqui
vai mais um do José Carlos Ary dos Santos.
Lisboa

Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade


Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny
Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


Torquato Neto

Pombo-Correio

Os garotos da Rua Noel Rosa
onde um talo de samba viça no calçamento,
viram o pombo-correio cansado
confuso
aproximar-se em vôo baixo.


Tão baixo voava: mais raso
que os sonhos municipais de cada um.
Seria o Exército em manobras
ou simplesmente
trazia recados de ai! amor
à namorada do tenente em Aldeia Campista?


E voando e baixando entrançou-se
entre folhas e galhos de fícus:
era um papagaio de papel,
estrelinha presa, suspiro
metade ainda no peito, outra metade
no ar.


Antes que o ferissem,
pois o carinho dos pequenos ainda é mais desastrado
que o dos homens
e o dos homens costuma ser mortal
uma senhora o salva
tomando-o no berço das mãos
e brandamente alisa-lhe
a medrosa plumagem azulcinza
cinza de fundos neutros de Mondrian
azul de abril pensando maio.


3235-58-Brasil
dizia o anel na perninha direita.
Mensagem não havia nenhuma
ou a perdera o mensageiro
como se perdem os maiores segredos de Estado
que graças a isto se tornam invioláveis,
ou o grito de paixão abafado
pela …
Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Florbela d'Alma da Conceição Espanca
Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!
...

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
«Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...»

Florbela Espanca
O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou trez vezes,
Trez vezes rodou immundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-rei D. João Segundo!»


Trez vezes do leme as mãos ergueu,
Trez vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer trez vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quere o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D' El-rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa - Me…
Imagem
O meu tesouro és tu
eternamente tu
não há passos divergentes
para quem se quer encontrar...

Jorge Palma
Imagem
Símbolos? Estou farto de símbolos...
Mas dizem-me que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.
Quais símbolos? Sonhos. –
Que o sol seja um símbolo, está bem...
Que a lua seja um símbolo, está bem...
Que a terra seja um símbolo, está bem...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa,
E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão para achar
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes.
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra...

Bem, vá, que tudo isso seja símbolo...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde demorava outrora com o namorado que a deixou?
Símbolos? Não quero sí…
Abril com "R"

«Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.

Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.»

Manuel Alegre

Sou um guardador de rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a uma criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.

Alberto Caeiro
Centenário das palavras

Todos os dias faz anos que foram inventadas as palavras.
É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras.


Nós e as palavras

Nós não somos do século de inventar as palavras. As palavras
Já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas.

Almada Negreiros (1921)
Poeta d'Orpheu, futurista e tudo
Comentários

O Corsário das Ilhas, já tem comentários, a partir de hoje, podem comentar toda a poesia e prosa aqui “postadas” e trocar opiniões entre todos.
Nota: Espero não ter estragado o Blog com um texto meu.
posta restante

Posto e não posto .
Gostava de postar mas não posto.
Posta restante.
Aposto que não posto
a bosta da posta
que tenho para postar.
Posto bastante sem postar.
Quase não posto.
Aposto que não gosta
da posta que posto.
Posto para mim.
Posto porque gosto.
Não posta, aposto
Porque sim
Porque tem medo
Da bosta da posta
Aposto que sim.

um texto poético para a blogosfera, publicado há tempos no Foguetabraze
MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!


Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa - a mensagem
Oiço falar

Oiço falar da minha vocação
mendicante e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci á rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava á minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara e doiravam
o chão. A música,
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria á minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.

Eugénio de Andrade
O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade
O lugar da Casa

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade
Imagem
Eu tenho idéias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.

Fernando António Nogueira de Pessoa

1932

Poetas portugueses traduzidos em Itália

A editora italiana Mondadori acaba de publicar uma antologia de mais de 400 páginas de poesia portuguesa, incluindo Pedro Tamen, Gastão Cruz, Manuel Alegre e Nuno Júdice. Chama-se "Inchiostro nero che danza sulla carta" ("tinta negra que dança no pápel)", e é organizada e traduzida por Giulia Lanciani, com prefácio do poeta e ensaísta Manuel Gusmão. Cada poeta tem cerca de 70 páginas em edição bilingue.

Boa noticia esta, para a literatura Portuguesa.
O poema que Eu gostava de ter escrito e não escrevi. O poema que Eu gostava de pôr aqui e Ela não deixou, o poema que está aqui
Poeta castrado, não!

Serei tudo o que disserem
Por inveja ou negação:
Cabeçudo dromedário
Fogueira de exibição
Teorema corolário
Poema de mão em mão
Lãzudo publicitário
Malabarista cabrão.
Serei tudo o que quiserem:
Poeta castrado, não!

Os que entendem como eu
As linhas com que me escrevo
Reconhecem o que é meu
Em tudo quanto lhes devo:
Ternura como já disse
Sempre que faço um poema;
Saudade que se partisse
Me alagaria de pena;
E também uma alegria
Uma coragem serena
Em renegar a poesia
Quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
A força que tem um verso
Reconhecem o que é seu
Quando lhes mostro o reverso:
Da fome já não se fala
-É tão vulgar que nos cansa-
Mas que dizer de uma bala
Num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
-a morte é branda e letal-
Mas que dizer da memória
De uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
O poema dia a dia?
-Um bisturi a crescer
Nas coxas de uma judia;
Um filho que vai nascer
Parido por asfixia?!
-Ah não me venham dizer
Que é fonética a…
Crucificação
Vertical sou contra Deus
Horizontal a favor.
Nesta cruz me crucifico
Vertical com desespero
Horizontal com amor.

Natália Correia
Açor

Aveludado
carniceiro de ninhos
e pai solícito, ei-lo
afogador de um pato selvagem:
as patas submergem o amigo
da água: casco pouco
a pouco afundado, expira.
Para a margem o leva;
oculto, acutila.
E tudo viu Deus, cego.


António Osório
A Ignorância da Morte
Lisboa, Edição de Autor, 1978

Poema em Linha Recta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondìvelmente parasita,
Indesculpàvelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapêtes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do sôco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do sôco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu…
Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!


Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...

Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, 'stou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!


Fernando Pessoa, 23-10-1931
O Menino da sua Mãe


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
– Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa

1926
Balança
No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.


Eugénio de Andrade
Sobre Flancos e Barcos

Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação

este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem

era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar

Eugénio de Andrade
Insomnia


Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insomnia da largura dos astros,
E um bocejo inutil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando accordo de noite,
Não posso escrever quando accordo de noite,
Não posso pensar quando accordo de noite –
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o opio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadaver accordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me succederam
– Todas aquellas de que me arrependo e me culpo –;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não succederam
– Todas aquellas de que me arrependo e me culpo –;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até d'essas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para accender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fôsse o universo.
Lá fóra ha o silêncio d'essa coisa …
Imagem
A alcova


Desce não sei por onde
Até não me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.

E o deserto está agora
Virado para baixo.

A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E ti…
Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto


Podres poderes

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais
Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindas, como são lindos os burgueses
Os japoneses

Mas tudo ‚ muito mais
Ser que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América Católica
Que sempre precisar de ridículos tiranos
Ser , ser que, ser que, ser que ser
Ser que essa minha estúpida retórica
Ter que soar, ter que se ouvir
Por mais mil anos?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios, padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado como eles

Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente
Mas tudo ‚ muito mal

Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice For jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, catingas
E nos gerais
Ser que apenas os hermetismos pascoais
E os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos …
VENDAVAL
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles - teu pulso divida
Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela …
O MOSTRENGO
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,


E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:


«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,


Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»


E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,


E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme


E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa
A mensagem
Imagem
Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.

A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas.)



21-10-1935

Imagem
Lenta, Descansa
Lenta, descansa a onda que a maré deixa.
Pesada cede. Tudo é sossegado.
Só o que é de homem se ouve.
Cresce a vinda da lua.
Nesta hora, Lídia ou Neera Ou Cloe,
Qualquer de vós me é estranha, que me inclino
Para o segredo dito Pelo silêncio incerto.
Tomo nas mãos, como caveira, ou chave
De supérfluo sepulcro, o meu destino,
E ignaro o aborreço Sem coração que o sinta.

Ricardo Reis