sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Podres poderes

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais
Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindas, como são lindos os burgueses
Os japoneses

Mas tudo ‚ muito mais
Ser que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América Católica
Que sempre precisar de ridículos tiranos
Ser , ser que, ser que, ser que ser
Ser que essa minha estúpida retórica
Ter que soar, ter que se ouvir
Por mais mil anos?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios, padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado como eles

Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente
Mas tudo ‚ muito mal

Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice For jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, catingas
E nos gerais
Ser que apenas os hermetismos pascoais
E os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas
E nada mais

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais
Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo
Tins e bens e tais
Tudo mais fundo
Tins e bens e tais


(Caetano Veloso)