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AUTOPSICOGRAFIA

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AUTOPSICOGRAFIA O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.
Fernando António Nogueira de Pessoa

Vaidade, Tudo Vaidade!

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Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?

António Nobre, in 'Só'

Pulvis es, et in pulverem reverteris

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Pulvis es, et in pulverem reverteris “Sois pó e em pó vos haveis de converter”, vem esta passagem do livro do Gênesis a propósito da Quaresma e da caminhada que alguns de nós já iniciaram, outros já acabaram e outros ainda há que vão começar. A caminhada de penitência, fé e esperança do Romeiro de São Miguel que desde os primórdios (1522) até hoje sofreu muitas evoluções e involuções mas que se manteve um movimento de cristãos em busca da salvação orando a Deus por interceção de Maria Mãe de Jesus. Na Igreja de Santo António dos Portugueses (Sant'Antonio in Campo Marzio), na Cidade de Roma no ano de 1672, no seu “Sermão de quarta-feira de cinzas”, o  Padre António Vieira acrescentou à frase bíblica as palavras memente homo, que significa: lembra-te ó Homem! Como uma exclamação recordatória de que todos somos insignificantemente mortais. Na verdade, muitos Cristãos como nós preocupam-se demasiado com a vida na terra, tratando dela como se fosse eterna quando na verdade todos sabemos q…

De regresso aos Caminhos da Ilha

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Esta é a primeira vez que partilho, publicamente e num órgão de comunicação social, aspetos da minha fé e da minha caminhada como Romeiro de São Miguel. Na verdade, ao longo dos anos tenho conseguido que este meu lado mais íntimo seja preservado. No entanto, quando recebi a solicitação para participar neste número de A Crença, fui tomado simultaneamente por um impulso para o fazer. As Romarias Quaresmais já passaram por muita fases, umas boas e outras menos boas e a pior delas foi quando se tornaram moda e objeto de curiosidade. Felizmente esse tempo passou e talvez por isso me tenha libertado dessa peia que ponha a mim próprio e que me inibia de partilhar os aspetos mais íntimos que um Cristão que também é Romeiro e dessa forma vive a sua fé guarda e deve guardar para si. Começamos já, quase todos, as nossas preparações para as romarias quaresmais de 2018. A caminhada de preparação para a grande e ansiada semana de verdadeira romaria é fundamental quer para a formação dos novos elem…

As fadas

As fadas...eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar...
Umas vivem nos rochedos,
Outras, à beira do mar...

Algumas em fonte fria
Escondem-se, enquanto é dia,
Saem só ao escurecer...
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder...

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flores,
Ficam horas sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de ouro e marfim.

Fonte - I

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Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo ---
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.

Herberto Helder
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Fonte, II


No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno da…