domingo, junho 13, 2004


Cabo Sim Cabo Não


Carlos Tê / Rui Veloso


Para lá do cabo não limite da criação
Fica o mar das trevas onde não foi mouro nem cristão
Vou rumar ao turbilhão de brumas e macaréus
Passá-lo é minha missão já me encomendei aos céus

Para lá do cabo não vou e voltarei ou não

A sul passei muitas léguas com o deserto a par
Anotei ventos e àguas na carta de marear
Até que surgiu outro cabo bramindo como um trovão
De treva cem vezes pior que a treva do cabo não

Para lá do bojador vou e voltarei ou não

Era um mar caldo de enxofre que rugia furibundo
Tragando barcas e homens até ao limbo do mundo
Estava guardado para mim ir buscar toda a coragem
Conter a bordo o motim e pôr de pé a marinhagem

Para lá do bojador vou e voltarei ou não

Passei a ponta medonha e o mar era só àgua e sal
Mas na costa mais areia e de vivalma nem sinal
Cabotamos mais abaixo ao correr da areia e do tempo
Rumo à estrela do sul para lá do cabo branco

Para lá do cabo branco vou e voltarei ou não

Um dia já tão cansado de cabo não cabo sim
Vi um belo cabo verde que ao deserto punha fim
Com gente da côr mais negra sem temor nenhum a deus
E vi rios de àgua doce e o verde ia até aos céus

Para lá do cabo verde vou e voltarei ou não

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