sexta-feira, julho 23, 2004


Ecloga


Sonhei
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

Nuno Júdice

sexta-feira, julho 16, 2004

A Boneca
 
Deixando a bola e a peteca
 Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.
 
Dizia a primeira: "É minha!"
? "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.
 
Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
 E amarrotada a carinha.
 
Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.
 
E, ao fim de tanta fadiga,
oltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca...
 
Olavo Bilac

segunda-feira, julho 12, 2004

O sol já se escondeu

O sol já se escondeu...
Precisamente quando,
feliz,
eu desatei a cantar.
(Só por feliz eu cantei).

Agora quero acabar,
que já me dói a garganta,
mas vou ainda cantando,
tremendo
dar por mim de novo triste
assim que esteja calado.
(...Como se a minha Alegria
nascesse de eu ter cantado).

Sebastião da Gama

quarta-feira, julho 07, 2004

SONETO DO CATIVO


Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão Ferreira,
in Os Quatro Cantos do Tempo

sábado, julho 03, 2004


O que é que eu posso dizer sobre o desaparecimento desta grande Senhora?
Nada. Para para além do que ela própria foi dizendo ao longo da sua obra.
"A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse"