terça-feira, novembro 23, 2004

Pequenas considerações sobre o futuro das coisas

Uma ponta de lápis que se cravou na minha mão
os pássaros que voam para sul no Inverno.
O nosso Inverno que é Verão do lado de lá do mundo
os oceanos que compõem a maior parte da Terra.
a vida das árvores
a mulher
o feto ainda incógnito que nasce no útero
as estrelas que vemos no céu
depois de mortas.
O que é Eterno
o pó que os nossos passos levantam
as memórias
a História
os Homens
uma pegada na lua
o fundo do mar
um soneto de Antero
o meu irmão
as ondas inesgotáveis que me fazem respirar
a voz de Jacques Brel cantando Les Marquises.
Os cabelos de uma mulher contornando-lhe o pescoço.
A musica que ecoa do contacto das coisas.
O fumo de um cigarro
o contacto da tua pele na minha
as mãos
um golo num copo
e um mundo líquido
a incerteza dos dias e a minha morte
no futuro
os livros que li
os que não li
as palavras que não pude escrever aqui
as mares por influência da lua
e a vida por influência do sol
e as estrelas por
vontade do Universo
e eu e tu
milhões de planetas no tecto do céu
num Universo flexível
e a teoria das cordas que é como um poema apenas perceptível pelos sentidos.
Sem razão
sem crítica
sem ego pelo meio.

Aqui chegado, o mundo olha para nós,
paro para desangustiar.
O peso das coisas enorme sobre
A tentativa talvez efémera de descobrir. O tempo.
Uma perspectiva, um desígnio, um espaço, um segundo de paz.
O ritmo sempre próprio das coisas reais, ininterruptas

O dia-a-dia de todos os homens da história
As suas vidas
Os seus anseios
e desejos
e ódios
e paixões
e dores
e sorrisos
e a tão frágil banalidade das vidas dos homens
que quando somos nós que a vivemos teimamos em a ver como ouro.
O que vale um homem para o desenrolar do Universo.
Quantas vidas na imagem de uma estrela.
Que efémero valor para as horas que passam quando somos nós que as vivemos.
Será num poema
ou num quadro
ou numa partitura
ou num beijo
ou na imortalidade do cosmos
que encontraremos o sentido
a estrela polar da existência
o sinal superior de que tudo faz parte do todo
e de como no passado nas estrelas
está o norte das nossas vidas
a rota celeste
o eco
que devolve a esperança de haver resposta para ser vivo.

Tantos gritos que ecoaram sem resposta pelo campo aberto do tempo...

O Amor.
A proximidade entre dois corações que batem
entre dois corpos
entre dois seres que hesitam
entre a hipótese de destino
e o fim.
Lágrimas e mortes
Outros seres que se formam
Guerras que nascem de amores
E desespero.
A criança que corre pelo corredor
atrás de uma bola que corre pelo tempo
a primeira silaba pronunciada um pouco a medo
o que está depois do choro
e o que estará depois das palavras.
O meu reflexo no espelho dos mares que passaram.

A palavra
o princípio das folhas
dos momentos, átomos de vida
interior e exterior
simultânea à palavra

o meu desejo de palavra
de materialização, de futuro
o meu desejo de eternidade
nas folhas de um imaginário, eterno, livro
num futuro lido

A minha incessante busca
mesmo quando imobilizado
a minha perseguição
interior e exterior
das palavras

A palavra
o Verbo inicial
a minha própria divindade humanidade
sumula de opostos
e de proximidades distantes

o meu caminho para o início e o fim
a força de um instante
que é vivido
ou não
instante total e absoluto
um milésimo de segundo
tão real como todos os conflitos da História.

As paragens
os sucessos e insucessos
o percurso
a partida e a chegada

O céu estrelado
ou ensolarado
ou encoberto e cinzentamente enevoado

A chuva e a lama no caminho
o vnto
umas vezes dócil outras selvagem e brusco

As velas do corpo
Como as velas de um barco abertas ao horizonte.
Barco liberto de amarras
ausente de cais e ancoras
alimentando-se apenas de mar e de ventos e de estrelas e de horizontes e de destino nenhum.

Corpo como barco
navegando o Oceano da vida
e das palavras.

As palavras que povoam o interior dos livros são tão vivas como os corações que habitam o interior dos corpos
veias como silabas e
verbos como glóbulos brancos
e frases como sangue
latidos, batimentos, virgulas

Pausas
silêncios pautados por breves intuitos de respirar
como virar uma página
um gesto do corpo
a poesia dá eternidade
assim como o Universo dá infinito
e as palavras nos livros são como
estrelas no universo
e o branco das folhas é a matéria negra do espaço
onde dançam as constelações

O Homem o que é.
A vida o que é.
A palavra o que é.

Para que tudo exista basta pronunciá-lo, basta pensar uma coisa para que esta seja
infinita e eternamente
como o Universo

O Homem é o criador de todas as coisas
A vida é uma palavra criada pelo Homem
A palavra criada pelo Homem é a criadora
de todas as coisas.

No ventre materno
o feto que seria eu criou palavras que agora me criam a mim
neste local distante do nascimento dos primeiros dias
o eco dessas palavras
define o passar das últimas horas
e o destino deste poema foi decidido ai.

O que sou eu. Palavras.

É este, enfim, o peso das coisas
preso eternamente na ausência de gravidade dos pensamentos
como se de estrelas
no escuro
O peso dos desejos íntimos
presos numa mão semi fechada

Um corpo ausente de calor
mais ainda não morto

A eternidade das coisas sem peso
das coisas longe da terra
e do ser-humano
do corpo humano

os versos sem peso
sem corpo
sem Universo
as linhas do poema
são orbitas em torno de mim

Quanto vale a morte de um poeta para a estatística do mundo.
Quanto vale um poema
numa estratégia de lucro.
Cobrará Deus o que ficar negativo?

Pedro de Mendoza

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