sexta-feira, junho 18, 2004

Calmaria
Carlos Tê / Rui Veloso

Foi medonha a tempestade que a agulha quase enlouquecia
Era tal o negrume do céu que não havia noite nem dia
Já eu pensava na morte fez-se súbita acalmia
Que nos deixou à sorte sem vento na maresia
Relembrei velhos pilotos relatos destas andanças
Piores que certos maremotos às vezes só certas bonanças
Reparamos os danos nas velas que o vento havia de chegar
Mas foram passando os dias e nós sem nada mais a inventar

E era medonha a calmaria

Segui o vôo de albatroz fisguei peixe-voador
Cantei para ouvir a minha voz recapitulei cada amor
Li a noite constelada na folha do firmamento
Vi a várzea azul semeada de àguas sem movimento
A mando do capitão fizemos procissão
Missa e novena cantada pescamos um tubarão
E depois de o cegar no convés com ele fizemos tourada
Mas do vento de feição é que ninguém sabia de nada

E era medonha a calmaria

Quase a dez dias de pasmo no alto mar sem aragem
Com o sol tisnando a prumo pus fim à minha viagem
Tão farto de calmaria pus o pé na amurada
E ali me fui na lezíria que o mar se fez margem lavrada

Calentura, calentura, calentura

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