segunda-feira, fevereiro 23, 2004

Insomnia


Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.

Espera-me uma insomnia da largura dos astros,
E um bocejo inutil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando accordo de noite,
Não posso escrever quando accordo de noite,
Não posso pensar quando accordo de noite –
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o opio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadaver accordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me succederam
– Todas aquellas de que me arrependo e me culpo –;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não succederam
– Todas aquellas de que me arrependo e me culpo –;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até d'essas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para accender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fôsse o universo.
Lá fóra ha o silêncio d'essa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra occasião qualquer,
Noutra occasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente sympathicos –
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fóra d'elles e de mim!

Tenho somno, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciencia sem de quê,
Salvo o necessario para sentir consciencia,
Salvo – sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande somno em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande somno em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia egual a este, a ser seguido por outra noite egual a
esta...
Vem trazer-me a alegria d'essa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doiam-me as costas de estar deitado de
lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para extender uma mão para o relogio,
Não tenho energia para nada, nem para mais nada...
Só para estes versos, escriptos no dia seguinte.
Sim, escriptos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escriptos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fóra.
Paz em toda a Natureza.
A humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exactamente.
A humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A humanidade esquece, sim, a humanidade esquece,
Mas mesmo accordada a Humanidade esquece.
Exactamente. Mas não durmo.

(27-3-1929)

Álvaro de Campos
Engenheiro naval "franzino e civilizado", o mais fecundo e versátil heterónimo de Fernando Pessoa, é também o mais nervoso e emotivo, que por vezes vai até à histeria. Com algumas composições iniciais que algo devem ao Decadentismo, Álvaro de Campos é, sobretudo, o futurista da exaltação da energia , da velocidade e da força da civilização mecânica do futuro, patentes na "Ode Triunfal". É o sensacionalista que pretende "sentir tudo de todas as maneiras", ultrapassar a fragmentaridade numa "histeria de sensações".