sexta-feira, novembro 26, 2004


A bunda que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora ? murmura a bunda ? esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
rebunda.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, novembro 23, 2004

Língua portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac
Pequenas considerações sobre o futuro das coisas

Uma ponta de lápis que se cravou na minha mão
os pássaros que voam para sul no Inverno.
O nosso Inverno que é Verão do lado de lá do mundo
os oceanos que compõem a maior parte da Terra.
a vida das árvores
a mulher
o feto ainda incógnito que nasce no útero
as estrelas que vemos no céu
depois de mortas.
O que é Eterno
o pó que os nossos passos levantam
as memórias
a História
os Homens
uma pegada na lua
o fundo do mar
um soneto de Antero
o meu irmão
as ondas inesgotáveis que me fazem respirar
a voz de Jacques Brel cantando Les Marquises.
Os cabelos de uma mulher contornando-lhe o pescoço.
A musica que ecoa do contacto das coisas.
O fumo de um cigarro
o contacto da tua pele na minha
as mãos
um golo num copo
e um mundo líquido
a incerteza dos dias e a minha morte
no futuro
os livros que li
os que não li
as palavras que não pude escrever aqui
as mares por influência da lua
e a vida por influência do sol
e as estrelas por
vontade do Universo
e eu e tu
milhões de planetas no tecto do céu
num Universo flexível
e a teoria das cordas que é como um poema apenas perceptível pelos sentidos.
Sem razão
sem crítica
sem ego pelo meio.

Aqui chegado, o mundo olha para nós,
paro para desangustiar.
O peso das coisas enorme sobre
A tentativa talvez efémera de descobrir. O tempo.
Uma perspectiva, um desígnio, um espaço, um segundo de paz.
O ritmo sempre próprio das coisas reais, ininterruptas

O dia-a-dia de todos os homens da história
As suas vidas
Os seus anseios
e desejos
e ódios
e paixões
e dores
e sorrisos
e a tão frágil banalidade das vidas dos homens
que quando somos nós que a vivemos teimamos em a ver como ouro.
O que vale um homem para o desenrolar do Universo.
Quantas vidas na imagem de uma estrela.
Que efémero valor para as horas que passam quando somos nós que as vivemos.
Será num poema
ou num quadro
ou numa partitura
ou num beijo
ou na imortalidade do cosmos
que encontraremos o sentido
a estrela polar da existência
o sinal superior de que tudo faz parte do todo
e de como no passado nas estrelas
está o norte das nossas vidas
a rota celeste
o eco
que devolve a esperança de haver resposta para ser vivo.

Tantos gritos que ecoaram sem resposta pelo campo aberto do tempo...

O Amor.
A proximidade entre dois corações que batem
entre dois corpos
entre dois seres que hesitam
entre a hipótese de destino
e o fim.
Lágrimas e mortes
Outros seres que se formam
Guerras que nascem de amores
E desespero.
A criança que corre pelo corredor
atrás de uma bola que corre pelo tempo
a primeira silaba pronunciada um pouco a medo
o que está depois do choro
e o que estará depois das palavras.
O meu reflexo no espelho dos mares que passaram.

A palavra
o princípio das folhas
dos momentos, átomos de vida
interior e exterior
simultânea à palavra

o meu desejo de palavra
de materialização, de futuro
o meu desejo de eternidade
nas folhas de um imaginário, eterno, livro
num futuro lido

A minha incessante busca
mesmo quando imobilizado
a minha perseguição
interior e exterior
das palavras

A palavra
o Verbo inicial
a minha própria divindade humanidade
sumula de opostos
e de proximidades distantes

o meu caminho para o início e o fim
a força de um instante
que é vivido
ou não
instante total e absoluto
um milésimo de segundo
tão real como todos os conflitos da História.

As paragens
os sucessos e insucessos
o percurso
a partida e a chegada

O céu estrelado
ou ensolarado
ou encoberto e cinzentamente enevoado

A chuva e a lama no caminho
o vnto
umas vezes dócil outras selvagem e brusco

As velas do corpo
Como as velas de um barco abertas ao horizonte.
Barco liberto de amarras
ausente de cais e ancoras
alimentando-se apenas de mar e de ventos e de estrelas e de horizontes e de destino nenhum.

Corpo como barco
navegando o Oceano da vida
e das palavras.

As palavras que povoam o interior dos livros são tão vivas como os corações que habitam o interior dos corpos
veias como silabas e
verbos como glóbulos brancos
e frases como sangue
latidos, batimentos, virgulas

Pausas
silêncios pautados por breves intuitos de respirar
como virar uma página
um gesto do corpo
a poesia dá eternidade
assim como o Universo dá infinito
e as palavras nos livros são como
estrelas no universo
e o branco das folhas é a matéria negra do espaço
onde dançam as constelações

O Homem o que é.
A vida o que é.
A palavra o que é.

Para que tudo exista basta pronunciá-lo, basta pensar uma coisa para que esta seja
infinita e eternamente
como o Universo

O Homem é o criador de todas as coisas
A vida é uma palavra criada pelo Homem
A palavra criada pelo Homem é a criadora
de todas as coisas.

No ventre materno
o feto que seria eu criou palavras que agora me criam a mim
neste local distante do nascimento dos primeiros dias
o eco dessas palavras
define o passar das últimas horas
e o destino deste poema foi decidido ai.

O que sou eu. Palavras.

É este, enfim, o peso das coisas
preso eternamente na ausência de gravidade dos pensamentos
como se de estrelas
no escuro
O peso dos desejos íntimos
presos numa mão semi fechada

Um corpo ausente de calor
mais ainda não morto

A eternidade das coisas sem peso
das coisas longe da terra
e do ser-humano
do corpo humano

os versos sem peso
sem corpo
sem Universo
as linhas do poema
são orbitas em torno de mim

Quanto vale a morte de um poeta para a estatística do mundo.
Quanto vale um poema
numa estratégia de lucro.
Cobrará Deus o que ficar negativo?

Pedro de Mendoza

domingo, novembro 21, 2004


composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa

(Fragmentos)

10.

"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados."

quarta-feira, novembro 10, 2004

poema de haver erro em dia novo
abriu os dedos ao devir da palavra como num rolo
enxugou as tintas frescas da parede lamentando ter perdido
a cedilha do tempo.
eram 10 horas.
errava ainda a par da primavera, o outono chiando, num
descanso taciturno,
atrapalhou-se com os minutos, enfiados nas algibeirase
foi-se
o dia começava amanhã novo
não chegara ainda o tempo das vírgulas.
Morreu num poema de haver erro em dia novo
enquanto tentava atravessar o ( livro ) de ponto.
Mariana Matos

terça-feira, novembro 02, 2004

A mulher que passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.

Vinicius de Moraes
(O branco mais preto do Barzil)