Rio Abaixo Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga... Quase noite. Ao sabor do curso lento Da água, que as margens em redor alaga, Seguimos. Curva os bambuais o vento. Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento, Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga A derradeira luz do firmamento... Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga. Um silêncio tristíssimo por tudo Se espalha. Mas a lua lentamente Surge na fímbria do horizonte mudo: E o seu reflexo pálido, embebido Como um gládio de prata na corrente, Rasga o seio do rio adormecido. Olavo Bilac
Mensagens
O navio de espelhos
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O navio de espelhos não navega cavalga Seu mar é a floresta que lhe serve de nível Ao crepúsculo espelha sol e lua nos flancos Por isso o tempo gosta de deitar-se com ele Os armadores não amam a sua rota clara (Vista do movimento dir-se-ia que pára) Quando chega à cidade nenhum cais o abriga O seu porão traz nada nada leva à partida Vozes e ar pesado é tudo o que transporta (E no mastro espelhado uma espécie de porta) Seus dez mil capitães têm o mesmo rosto A mesma cinta escura o mesmo grau e posto Quando um se revolta há dez mil insurrectos (Como os olhos da mosca reflectem os objectos) E quando um deles ala o corpo sobre os mastros e escruta o mar do fundo Toda a nave cavalga (como no espaço os astros) Do princípio do mundo até ao fim do mundo Mário Cesariny
MAR PORTUGUÊS
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Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quere passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. in Mensagem, Fernando Pessoa
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Chamo-Te Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio E suportar é o tempo mais comprido. Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. Há muitas coisas que não quero ver. Peço-Te que sejas o presente. Peço-Te que inundes tudo. E que o Teu reino antes do tempo venha E se derrame sobre a Terra Em Primavera feroz precipitado. Sophia de Mello Breyner Andresen
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«ESTÃO PODRES AS PALAVRAS....» Estão podres as palavras - de passarem por sórdidas mentiras de canalhas que as usam ao revés como o carácter deles. E podres de sonâmbulos os povos ante a maldade à solta de que vivem a paz quotidiana da injustiça. Usá-las puras - como serão puras, se caem no silêncio em que os mais puros não sabem já onde a limpeza acaba e a corrupção começa? Como serão puras se logo a infâmia as cobre de seu cuspo? Estão podres: e com elas apodrece a mundo e se dissolve em lama a criação do homem que só persiste em todos livremente onde as palavras fiquem como torres erguidas sexo de homens entre o céu e a terra. Jorge de Sena
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Greguerías Si vais a la felicidad llevad sombrilla. _________________ El reloj es una bomba de tiempo, de más o menos tiempo. _________________ Después de la emigración no queda más que la transmigración. _________________ Los recuerdos encogen como las camisetas. _________________ La felicidad consiste en ser un desgraciado que se sienta feliz. _________________ El reloj no existe en las horas felices. _________________ Somos lazarillos de nuestros sueños. _________________ Aburrirse es besar a la muerte. _________________ Los monos no encanecen porque no piensan. _________________ La manera de curarse el corazón es ahorrando presentimientos. _________________ Nostalgia: neuralgia de los recuerdos. _________________ El sueño es un depósito de objetos extraviados. _________________ El filósofo antiguo sacaba la filosofía ordeñándose la barba. _________________ Hay que ser un poco idiota en la vida, pues si no se aprovechan los demás y lo son sólo ellos. _________________ Era tan moral ...
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A Rosa de Hiroxima Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroxima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada. Vinicius de Moraes
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Vinícius De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente Fez-se do amor próximo distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. Vinicius de Moraes
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A palavra impossível Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim A vida que não se troca por palavras. Deram-mo para eu guardar dentro de mim As vozes que só em mim são verdadeiras. Deram-mo para eu guardar dentro de mim A impossível palavra da verdade. Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível, Para eu guardar dentro de mim, Para eu ignorar dentro de mim A única palavra sem disfarce - A Palavra que nunca se profere. Adolfo Casais Monteiro
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O Tempo não sabe nada o tempo não sabe nada o tempo não tem razão o tempo nunca existiu é da nossa invenção se abandonarmos as horas para nos sentirmos sós meu amor o tempo somos nós o espaço tem o volume da imaginação além do nosso horizonte existe outra dimensão o espaço foi construído sem princípio nem fim meu amor tu cabes dentro de mim o meu tesouro és tu eternamente tu não há passos divergentes para quem se quer encontrar a nossa história começa na total escuridão onde o mistério ultrapassa a nossa compreensão a nossa história é o esforço para alcançar a luz meu amor o impossível seduz o meu tesouro és tu eternamente tu não há passos divergentes para quem se quer encontrar Jorge Palma
Greguerías-Amor
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Como daba besos lentos duraban más sus amores. _________________ A veces un beso no es más que chewing gum compartido. _________________ La reja es el teléfono de más corto hilo para hablar de amor. _________________ Amor es despertar a una mujer y que no se indigne. _________________ Daba besos de segunda boca. _________________ El primer beso es un robo. _________________ Cuando una mujer te plancha la solapa con la mano ya estás perdido. _________________ Cuando la mujer pide ensalada de frutas para dos perfecciona el pecado original. _________________ El amor nace del deseo repentino de hacer eterno lo pasajero. _________________ En la manera de matar la colilla contra el cenicero se reconoce a la mujer cruel. _________________ Aquella mujer me miró como a un taxi desocupado. _________________ Hay matrimonios que se dan la espalda mientras duermen para que el uno no le robe al otro los sueños ideales. _________________ Si os tiembla la cerilla al dar lumbre a una mujer, estáis perd...
I CANNOT live with you.
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Emily Dickinson (1830–86). Complete Poems. 1924. Part Three: Love XII I CANNOT live with you, It would be life, And life is over there Behind the shelf The sexton keeps the key to, Putting up Our life, his porcelain, Like a cup Discarded of the housewife, Quaint or broken; A newer Sèvres pleases, Old ones crack. I could not die with you, For one must wait To shut the other’s gaze down,— You could not. And I, could I stand by And see you freeze, Without my right of frost, Death’s privilege? Nor could I rise with you, Because your face Would put out Jesus’, That new grace Glow plain and foreign On my homesick eye, Except that you, than he Shone closer by. They ’d judge us—how? For you served Heaven, you know, Or sought to; I could not, Because you saturated sight, And I had no more eyes For sordid excellence As Paradise. And were you lost, I would be, Though my name Rang loudest On the heavenly fame. And were you saved, And I condemned to be Where you were not, That self were hell to me....
Solidão
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Solidão Ó solidão! À noite, quando, estranho, Vagueio sem destino, pelas ruas, O mar todo é de pedra... E continuas. Todo o vento é poeira... E continuas. A Lua, fria, pesa... E continuas. Uma hora passa e outra... E continuas. Nas minhas mãos vazias continuas, No meu sexo indomável continuas, Na minha branca insónia continuas, Paro como quem foge. E continuas. Chamo por toda a gente. E continuas. Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas. Invento um verso... E rasgo-o. E continuas. Eterna, continuas... Mas sei por fim que sou do teu tamanho! Pedro Homem de Mello
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As pedras As pedras falam? pois falam mas não à nossa maneira, que todas as coisas sabem uma história que não calam. Debaixo dos nossos pés ou dentro da nossa mão o que pensarão de nós? O que de nós pensarão? As pedras cantam nos lagos choram no meio da rua tremem de frio e de medo quando a noite é fria e escura. Riem nos muros ao sol, no fundo do mar se esquecem. Umas partem como aves e nem mais tarde regressam. Brilham quando a chuva cai. Vestem-se de musgo verde em casa velha ou em fonte que saiba matar a sede. Foi de duas pedras duras que a faísca rebentou: uma germinou em flor e a outra nos céus voou. As pedras falam? pois falam. Só as entende quem quer, que todas as coisas têm um coisa para dizer. Maria Alberta Meneres
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O que diz a Morte "Deixai-os vir a mim, os que lidaram; Deixai-os vir a mim, os que padecem; E os que cheios de mágoa e tédio encaram As próprias obras vãs, de que escarnecem... Em mim, os Sofrimentos que não saram, Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem. As torrentes da Dor, que nunca param, Como num mar, em mim desaparecem." - Assim a Morte diz. Verbo velado, Silencioso intérprete sagrado Das coisas invisíveis, muda e fria. É, na sua mudez, mais retumbante Que o clamoroso mar; mais rutilante, Na sua noite, do que a luz do dia. Antero de Quental
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Autografia Sou um homem um poeta uma máquina de passar vidro colorido um copo uma pedra uma pedra configurada um avião que sobe levando-te nos seus braços que atravessam agora o último glaciar da terra O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado à morte! os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que existe nele uma árvore miraculada tenho um pé que já deu a volta ao mundo e a família na rua um é loiro outro moreno e nunca se encontrarão conheço a tua voz como os meus dedos (antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa) tenho um sol sobre a pleura e toda a água do mar à minha espera quando amo imito o movimento das marés e os assassínios mais vulgares do ano sou, por fora de mim, a minha gabardina eu o pico do Everest posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca porque tu és o dia porque tu és terra onde eu há milhares de anos vivo a parábo...
O navio de espelhos
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O navio de espelhos não navega cavalga Seu mar é a floresta que lhe serve de nível Ao crepúsculo espelha sol e lua nos flancos Por isso o tempo gosta de deitar-se com ele Os armadores não amam a sua rota clara (Vista do movimento dir-se-ia que pára) Quando chega à cidade nenhum cais o abriga O seu porão traz nada nada leva à partida Vozes e ar pesado é tudo o que transporta (E no mastro espelhado uma espécie de porta) Seus dez mil capitães têm o mesmo rosto A mesma cinta escura o mesmo grau e posto Quando um se revolta há dez mil insurrectos (Como os olhos da mosca reflectem os objectos) E quando um deles ala o corpo sobre os mastros e escruta o mar do fundo Toda a nave cavalga ( Como no espaço os astros) Do princípio do mundo até ao fim do mundo. -Mário Cesariny