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Lisboa ainda Lisboa não tem beijos nem abraços não tem risos nem esplanadas não tem passos nem raparigas e rapazes de mãos dadas tem praças cheias de ninguém ainda tem sol mas não tem nem gaivota de Amália nem canoa sem restaurantes sem bares nem cinemas ainda é fado ainda é poemas fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa cidade aberta ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste e em cada rua deserta ainda resiste. Manuel Alegre 20-03-2020 Manuel Alegre, poema escrito em 20 de março de 2020

AUTOPSICOGRAFIA

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AUTOPSICOGRAFIA O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração. Fernando António Nogueira de Pessoa

Vaidade, Tudo Vaidade!

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Vaidade, meu amor, tudo vaidade! Ouve: quando eu, um dia, for alguem, Tuas amigas ter-te-ão amizade, (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm. Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade, Tudo vaidade! E, se pensares bem, Verás, perdoa-me esta crueldade, Que é uma vaidade o amor de tua mãe... Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna E eu vi-me só no mar com minha escuna, E ninguem me valeu na tempestade! Hoje, já voltam com seu ar composto, Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto... E isto em mim não será uma vaidade? António Nobre, in 'Só'  

Pulvis es, et in pulverem reverteris

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Pulvis es, et in pulverem reverteris “Sois   pó e em pó vos haveis de converter”, vem esta passagem do livro do Gênesis a propósito da Quaresma e da caminhada que alguns de nós já iniciaram, outros já acabaram e outros ainda há que vão começar. A caminhada de penitência, fé e esperança do Romeiro de São Miguel que desde os primórdios (1522) até hoje sofreu muitas evoluções e involuções mas que se manteve um movimento de cristãos em busca da salvação orando a Deus por interceção de Maria Mãe de Jesus. Na Igreja de Santo António dos Portugueses ( Sant'Antonio in Campo Marzio) , na Cidade de Roma no ano de 1672, no seu “Sermão de quarta-feira de cinzas”, o  Padre António Vieira acrescentou à frase bíblica as palavras memente homo , que significa: lembra-te ó Homem! Como uma exclamação recordatória de que todos somos insignificantemente mortais.   Na verdade, muitos Cristãos como nós preocupam-se demasiado com a vida na terra, tratando dela como se fosse eterna quando na ve

De regresso aos Caminhos da Ilha

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Esta é a primeira vez que partilho, publicamente e num órgão de comunicação social, aspetos da minha fé e da minha caminhada como Romeiro de São Miguel. Na verdade, ao longo dos anos tenho conseguido que este meu lado mais íntimo seja preservado. No entanto, quando recebi a solicitação para participar neste número de A Crença, fui tomado simultaneamente por um impulso para o fazer. As Romarias Quaresmais já passaram por muita fases, umas boas e outras menos boas e a pior delas foi quando se tornaram moda e objeto de curiosidade. Felizmente esse tempo passou e talvez por isso me tenha libertado dessa peia que ponha a mim próprio e que me inibia de partilhar os aspetos mais íntimos que um Cristão que também é Romeiro e dessa forma vive a sua fé guarda e deve guardar para si. Começamos já, quase todos, as nossas preparações para as romarias quaresmais de 2018. A caminhada de preparação para a grande e ansiada semana de verdadeira romaria é fundamental quer para a formação dos novos e

As fadas

As fadas...eu creio nelas! Umas são moças e belas, Outras, velhas de pasmar... Umas vivem nos rochedos, Outras, à beira do mar... Algumas em fonte fria Escondem-se, enquanto é dia, Saem só ao escurecer... Outras, debaixo da terra, Nas grutas verdes da serra, É que se vão esconder... O luar é os seus amores! Sentadinhas entre as flores, Ficam horas sem fim, Cantando suas cantigas, Fiando suas estrigas, Em roca de ouro e marfim. Umas têm mando nos ares; Outras, na terra, nos mares; E todas trazem na mão Aquela vara famosa, A varinha de condão! Mas com tudo isto, as fadas São muito desconfiadas: Quem as vê não há-de rir, Querem elas que as respeitem, E não gostam que as espreitem, Nem se lhes há-de mentir. E têm vinganças terríveis! Semeiam coisas horríveis, Que nascem logo do chão... Línguas de fogo,que estalam! Sapos com asas, que falam!

Fonte - I

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Ela é a fonte. Eu posso saber que é a grande fonte em que todos pensaram. Quando no campo se procurava o trevo, ou em silêncio se esperava a noite, ou se ouvia algures na paz da terra o urdir do tempo --- cada um pensava na fonte. Era um manar secreto e pacífico. Uma coisa milagrosa que acontecia ocultamente. Ninguém falava dela, porque era imensa. Mas todos a sabiam como a teta. Como o odre. Algo sorria dentro de nós. Minhas irmãs faziam-se mulheres suavemente. Meu pai lia. Sorria dentro de mim uma aceitação do trevo, uma descoberta muito casta. Era a fonte. Eu amava-a dolorosa e tranquilamente. A lua formava-se com uma ponta subtil de ferocidade, e a maçã tomava um princípio de esplendor. Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento perdeu-se e renasceu. Hoje sei permanentemente que ela é a fonte. Herberto Helder