Onde era a Vila com suas ruas e casas agora é o asfalto do aeroporto. Onde o Convento ainda a igreja e talvez sernalhas e ratos onde era a frescura do claustro. Já não se vê onde morou James Mackay e a Rua das Flores foi cortada ao meio. O Avelar pegou de cabeça e outros antes quiseram morrer que ver a morte, cater-pillars e bull-dozers matando a Vila. Mas onde tudo isso era e eles lá e os plátanos da Praça e as araucárias há cem anos guardando a paz das casas, agora pousam aviões e há franceses. Longe, numa cidade a que chamam Lisboa, a Vila rendeu não sei quantos mil milhões e mil nepotes sentam-se à mesa, empunham facas e garfos, comem-na, bebem-na, enfeitam-se, corneiam-se, vão pensando se outras vilas – «lá na Ilha» – ainda mais haverá para vender a japoneses ou russos ou turcos ou a um qualquer emir atomizado da Arábia ou de Marte ou de Casa-do-Diabo. Onde era a Vila não tem importância, nem James Mackay, nem o ...
AUTOPSICOGRAFIA O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração. Fernando António Nogueira de Pessoa
Lisboa ainda Lisboa não tem beijos nem abraços não tem risos nem esplanadas não tem passos nem raparigas e rapazes de mãos dadas tem praças cheias de ninguém ainda tem sol mas não tem nem gaivota de Amália nem canoa sem restaurantes sem bares nem cinemas ainda é fado ainda é poemas fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa cidade aberta ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste e em cada rua deserta ainda resiste. Manuel Alegre 20-03-2020 Manuel Alegre, poema escrito em 20 de março de 2020