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POEMAS DA PRIMAVERA

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A FONTE Com voz nascente a fonte nos convida A renascermos incessantemente Na luz do antigo sol nu e recente E no sussurro da noite primitiva. Sophia de Mello Breyner FLORES Era preciso agradecer às flores Terem guardado em si, Límpida e pura, Aquela promessa antiga Duma manhã futura. Sophia de Mello Breyner GLÓRIA Depois do Inverno, morte figurada, A primavera, uma assunção de flores. A vida Renascida E celebrada Num festival de pétalas e cores. Miguel Torga
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La mano [Conto. Texto completo] Ramón Gómez de la Serna El doctor Alejo murió asesinado. Indudablemente murió estrangulado. Nadie había entrado en la casa, indudablemente nadie, y aunque el doctor dormía con el balcón abierto, por higiene, era tan alto su piso que no era de suponer que por allí hubiese entrado el asesino. La policía no encontraba la pista de aquel crimen, y ya iba a abandonar el asunto, cuando la esposa y la criada del muerto acudieron despavoridas a la Jefatura. Saltando de lo alto de un armario había caído sobre la mesa, las había mirado, las había visto, y después había huido por la habitación, una mano solitaria y viva como una araña. Allí la habían dejado encerrada con llave en el cuarto. Llena de terror, acudió la policía y el juez. Era su deber. Trabajo les costó cazar la mano, pero la cazaron y todos le agarraron un dedo, porque era vigorosa corno si en ella radicase junta toda la fuerza de un hombre fuerte. ¿Qué hacer con ella? ¿Qué luz iba a arrojar sobre el ...
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"Um domingo Estoril" de passarem navios, petroleiros. de passarem às vezes cruzadores. de passarem as nuvens e os veleiros. de cansarem o olhar os pescadores. de passarem atletas e mulheres. de passarem os cães e os namorados. e, em seus óculos grandes como halteres, inglesas lambiscando os seus gelados. de passarem as ruivas do casino, sardentas e lascivas, e o ginasta que em frente dos banhistas faz o pino. de passar o comboio que se afasta. de passar repassar a mulidão de um domingo estoril no paredão. Vasco Graça Moura
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Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena I PANDEMOS Dentífona apriuna a veste iguana de que se escalca auroma e tentavela. Como superta e buritânea amela se palquitonará transcêndia inana! Que vúlcios defuratos, que inumana sussúrica donstália penicela às trícotas relesta demiquela, fissivirão boíneos, ó primana! Dentívolos palpículos, baissai! Lingâmicos dolins, refucarai! Por manivornas contumai a veste! E, quando prolifarem as sangrárias, lambidonai tutílicos anárias, tão placitantos como o pedipeste. II ANÓSIA Que marinais sob tão pora luva de esbanforida pel retinada não dão volpúcia de imajar anteada a que moltínea se adamenta ocuva? Bocam dedetos calcurando a fuva que arfala e dúpia de antegor tutada, e que tessalta de nigrors nevada. Vitrai, vitrai, que estamineta cuva! Labiliperta-se infanal a esvebe, agluta, acedirasma, sucamina, e maniter suavira o termidodo. Que marinais dulcífima contebe, ejacicasto, ejacifasto, arina!... Que marinais, tão pora luva, todo... III URÂNIA Purília...
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A mulher que passa Meu Deus, eu quero a mulher que passa. Seu dorso frio é um campo de lírios Tem sete cores nos seus cabelos Sete esperanças na boca fresca! Oh! Como és linda, mulher que passas Que me sacias e suplicias Dentro das noites, dentro dos dias! Teus sentimentos são poesia Teus sofrimentos, melancolia. Teus pêlos são relva boa Fresca e macia. Teus belos braços são cisnes mansos Longe das vozes da ventania. Meu Deus, eu quero a mulher que passa! Como te adoro, mulher que passas Que vens e passas, que me sacias Dentro das noites, dentro dos dias! Por que me faltas, se te procuro? Por que me odeias quando te juro Que te perdia se me encontravas E me encontravas se te perdias? Por que não voltas, mulher que passas? Por que não enches a minha vida? Por que não voltas, mulher querida Sempre perdida, nunca encontrada? Por que não voltas à minha vida Para o que sofro não ser desgraça? Meu Deus, eu quero a mulher que passa! Eu quero-a agora, sem mais demora A minha amada mulher que ...
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Não toques nos objectos imediatos Não toques nos objectos imediatos. A harmonia queima. Por mais leve que seja um bule ou uma chavená, são loucos todos os objectos. Uma jarra com um crisântemo transparente tem um tremor oculto. É terrível no escuro. Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer. A boca fica em chaga. Herberto Helder
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Seios Sei os teus seios. Sei-os de cor. Para a frente, para cima, Despontam, alegres, os teus seios. Vitoriosos já, Mas não ainda triunfais. Quem comparou os seios que são teus (Banal imagem) a colinas! Com donaire avançam os teus seios, Ó minha embarcação! Por que não há Padarias que em vez de pão nos dêem seios Logo p´la manhã? Quantas vezes Interrogaste, ao espelho, os seios? Tão tolos os teus seios! Toda a noite Com inveja um do outro, toda a santa Noite! Quantos seios ficaram por amar? Seios pasmados, seios lorpas, seios Como barrigas de glutões! Seios decrépitos e no entanto belos Como o que já viveu e fez viver! Seios inacessíveis e tão altos Como um orgulho que há-de rebentar Em desesperadas, quarentonas lágrimas... Seios fortes como os da Liberdade - Delacroix - guiando o povo. Seios que vão à escola p´ra de lá saírem Direitinhos p´ra casa... Seios que deram o bom leite da vida A vorazes folhos alheios! Diz-se rijo dum seio que, vencido, Acaba por vencer... O amor excessivo du...

Natal, e não Dezembro

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Entremos, apressados, friorentos, numa gruta, no bojo de um navio, num presépio, num prédio, num presídio no prédio que amanhã for demolido... Entremos, inseguros, mas entremos. Entremos e depressa, em qualquer sítio, porque esta noite chama-se Dezembro, porque sofremos, porque temos frio. Entremos, dois a dois: somos duzentos, duzentos mil, doze milhões de nada. Procuremos o rastro de uma casa, a cave, a gruta, o sulco de uma nave... Entremos, despojados, mas entremos. De mãos dadas talvez o fogo nasça, talvez seja Natal e não Dezembro, talvez universal a consoada. David Mourão-Ferreira, Cancioneiro de Natal

Estrela

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Estrela que me nasceste Quando a vista mal te alcança Nessa abóbada celeste, Onde a nossa alma descansa A sua última esperança... Estrela que me nasceste Quando a vista mal te alcança! Antes nascesses mais cedo, Estrela da madrugada! E não já noite cerrada... Que até no céu mete medo Ver essa estrela isolada... Antes nascesses mais cedo. Estrela da madrugada! João de Deus

Navio

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Tenho a carne dorida Do pousar de umas aves Que não sei de onde são: Só sei que gostam de vida Picada em meu coração. Quando vêm, vêm suaves; Partindo, tão gordas vão! Como eu gosto de estar Aqui na minha janela A dar miolos às aves! Ponho-me a olhar para o mar: —Olha-me um navio sem rumo! E, de vê-lo, dá-lhe a vela, Ou sejam meus cílios tristes: A ave e a nave, em resumo, Aqui, na minha janela. Vitorino Nemésio
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A casada infiel Eu que a levei ao rio, pensando que era donzela, porém tinha marido. Foi na noite de Santiago e quase por compromisso. Apagaram-se os lampiões e acenderam-se os grilos. Nas últimas esquinas toquei seus peitos dormidos, e se abriram prontamente como ramos de jacintos. A goma de sua anágua soava em meu ouvido como uma peça de seda rasgada por dez punhais. Sem luz de prata em suas copas as árvores estão crescidas, e um horizonte de cães ladra mui longe do rio. Passadas as sarçamoras, os juncos e os espinhos, debaixo de seus cabelos fiz uma cova sobre o limo. Eu tirei a gravata. Ela tirou o vestido. Eu, o cinturão com revólver. Ela, seus quatro corpetes. Nem nardos nem caracóis têm uma cútis tão fina, nem os cristais com lua reluzem com esse brilho. Suas coxas me escapavam como peixes surpreendidos, a metade cheias de lume, a metade cheias de frio. Aquela noite corri o melhor dos caminhos, montado em potra de nácar sem bridas e sem estribos. Não quero dizer, por homem, as c...
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Grito Hacia Roma (Desde La Torre Del Crysler Building) Manzanas levemente heridas por los finos espadines de plata, nubes rasgadas por una mano de coral que lleva en el dorso una almendra de fuego, peces de arsénico como tiburones, tiburones como gotas de llanto para cegar una multitud, rosas que hieren y agujas instaladas en los caños de la sangre, mundos enemigos y amores cubiertos de gusanos caerán sobre ti. Caerán sobre la gran cúpula que untan de aceite las lenguas militares donde un hombre se orina en una deslumbrante paloma y escupe carbón machacado rodeado de miles de campanillas. Porque ya no hay quien reparta el pan ni el vino, ni quien cultive hierbas en la boca del muerto, ni quien abra los linos del reposo, ni quien llore por las heridas de los elefantes. No hay más que un millón de herreros forjando cadenas para los niños que han de venir. No hay más que un millón de carpinteros que hacen ataúdes sin cruz. No hay más que un gentío de lamentos que se abren las ropas en esp...
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Pequeño Poema Infinito Para Luis Cardoza y Aragón Equivocar el camino es llegar a la nieve y llegar a la nieve es pacer durante veinte siglos las hierbas de los cementerios. Equivocar el camino es llegar a la mujer, la mujer que no teme la luz, la mujer que mata dos gallos en un segundo, y luz que no teme a los gallos y los gallos que no saben cantar sobre la nieve. Pero si la nieve se equivoca de corazón puede llegar el viento Austro y como el aire no hace caso de los gemidos tendremos que pacer otra vez las hierbas de los cementerios. Yo vi dos dolorosas espigas de cera que enterraban un paisaje de volcanes y vi dos niños locos que empujaban llorando las pupilas de un asesino. Pero el dos no ha sido nunca un número porque es una angustia y su sombra, porque es la guitarra donde el amor se desespera, porque es la demostración de otro infinito que no es suyo y es las murallas del muerto y el castigo de la nueva resurrección sin finales. Los muertos odian el número dos, pero el número d...
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Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando. Em qualquer língua se entende essa palavra. Sem qualquer língua. O sangue sabe-o. Uma inteligência esparsa aprende esse convite inadiável. Búzios somos, moendo a vida inteira essa música incessante. Morte, morte. Levamos toda a vida morrendo em surdina. No trabalho, no amor, acordados, em sonho. A vida é a vigilância da morte, até que o seu fogo veemente nos consuma sem a consumir. Cecília Meireles

Noche de amor insomne

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Noche arriba los dos con luna llena, yo me puse a llorar y tú reías. Tu desdén era un dios, las penas mías momentos y palomas en cadenas. Noche abajo los dos. Cristal de pena, llorabas tú por hondas lejanías sobre tu débil corazón de arena. La aurora nos unió sobre la cama, las bocas puestas sobre el chorro helado de una sangre sin fin que se derrama. Y el sol entró por el balcón cerrado y el coral de la vida abrió su rama sobre mi corazón amortajado. Garcia Lorca

Morte de D. Quixote

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Pobres, gritai comigo: Abaixo o D. Quixote com cabeça de nuvens e espada de papelão! (E viva o Chicote no silêncio da nossa Mão!) Pobres, gritai comigo: Abaixo o D. Quixote que só nos emperra de neblina! (E viva o Archote que incendeia a terra, mas ilumina!) Pobres, gritai comigo: Abaixo o cavaleiro de lança de soluços e bola de sabão no elmo de barbeiro! (E vivam os nossos Pulsos que, num repelão, hão-de rasgar o nevoeiro!) José Gomes Ferreira

Ciudad Sin Sueño

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(Nocturno de Brooklyn Bridge) No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie. No duerme nadie. Las criaturas de la luna huelen y rondan sus cabañas. Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan y el que huye con el corazón roto encontrará por las esquinas al increíble cocodrilo quieto bajo la tierna protesta de los astros. No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie. No duerme nadie. Hay un muerto en el cementerio más lejano que se queja tres años porque tiene un paisaje seco en la rodilla; y el niño que enterraron esta mañana lloraba tanto que hubo necesidad de llamar a los perros para que callase. No es sueño la vida. ¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta! Nos caemos por las escaleras para comer la tierra húmeda o subimos al filo de la nieve con el coro de las dalias muertas. Pero no hay olvido, ni sueño: carne viva. Los besos atan las bocas en una maraña de venas recientes y al que le duele su dolor le dolerá sin descanso y al que teme la muerte la llevará sobre sus hombros. Un día...
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Rio Abaixo Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga... Quase noite. Ao sabor do curso lento Da água, que as margens em redor alaga, Seguimos. Curva os bambuais o vento. Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento, Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga A derradeira luz do firmamento... Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga. Um silêncio tristíssimo por tudo Se espalha. Mas a lua lentamente Surge na fímbria do horizonte mudo: E o seu reflexo pálido, embebido Como um gládio de prata na corrente, Rasga o seio do rio adormecido. Olavo Bilac

O navio de espelhos

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O navio de espelhos não navega cavalga Seu mar é a floresta que lhe serve de nível Ao crepúsculo espelha sol e lua nos flancos Por isso o tempo gosta de deitar-se com ele Os armadores não amam a sua rota clara (Vista do movimento dir-se-ia que pára) Quando chega à cidade nenhum cais o abriga O seu porão traz nada nada leva à partida Vozes e ar pesado é tudo o que transporta (E no mastro espelhado uma espécie de porta) Seus dez mil capitães têm o mesmo rosto A mesma cinta escura o mesmo grau e posto Quando um se revolta há dez mil insurrectos (Como os olhos da mosca reflectem os objectos) E quando um deles ala o corpo sobre os mastros e escruta o mar do fundo Toda a nave cavalga (como no espaço os astros) Do princípio do mundo até ao fim do mundo Mário Cesariny

MAR PORTUGUÊS

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Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quere passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. in Mensagem, Fernando Pessoa