Mensagens

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A casada infiel Eu que a levei ao rio, pensando que era donzela, porém tinha marido. Foi na noite de Santiago e quase por compromisso. Apagaram-se os lampiões e acenderam-se os grilos. Nas últimas esquinas toquei seus peitos dormidos, e se abriram prontamente como ramos de jacintos. A goma de sua anágua soava em meu ouvido como uma peça de seda rasgada por dez punhais. Sem luz de prata em suas copas as árvores estão crescidas, e um horizonte de cães ladra mui longe do rio. Passadas as sarçamoras, os juncos e os espinhos, debaixo de seus cabelos fiz uma cova sobre o limo. Eu tirei a gravata. Ela tirou o vestido. Eu, o cinturão com revólver. Ela, seus quatro corpetes. Nem nardos nem caracóis têm uma cútis tão fina, nem os cristais com lua reluzem com esse brilho. Suas coxas me escapavam como peixes surpreendidos, a metade cheias de lume, a metade cheias de frio. Aquela noite corri o melhor dos caminhos, montado em potra de nácar sem bridas e sem estribos. Não quero dizer, por homem, as c...
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Grito Hacia Roma (Desde La Torre Del Crysler Building) Manzanas levemente heridas por los finos espadines de plata, nubes rasgadas por una mano de coral que lleva en el dorso una almendra de fuego, peces de arsénico como tiburones, tiburones como gotas de llanto para cegar una multitud, rosas que hieren y agujas instaladas en los caños de la sangre, mundos enemigos y amores cubiertos de gusanos caerán sobre ti. Caerán sobre la gran cúpula que untan de aceite las lenguas militares donde un hombre se orina en una deslumbrante paloma y escupe carbón machacado rodeado de miles de campanillas. Porque ya no hay quien reparta el pan ni el vino, ni quien cultive hierbas en la boca del muerto, ni quien abra los linos del reposo, ni quien llore por las heridas de los elefantes. No hay más que un millón de herreros forjando cadenas para los niños que han de venir. No hay más que un millón de carpinteros que hacen ataúdes sin cruz. No hay más que un gentío de lamentos que se abren las ropas en esp...
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Pequeño Poema Infinito Para Luis Cardoza y Aragón Equivocar el camino es llegar a la nieve y llegar a la nieve es pacer durante veinte siglos las hierbas de los cementerios. Equivocar el camino es llegar a la mujer, la mujer que no teme la luz, la mujer que mata dos gallos en un segundo, y luz que no teme a los gallos y los gallos que no saben cantar sobre la nieve. Pero si la nieve se equivoca de corazón puede llegar el viento Austro y como el aire no hace caso de los gemidos tendremos que pacer otra vez las hierbas de los cementerios. Yo vi dos dolorosas espigas de cera que enterraban un paisaje de volcanes y vi dos niños locos que empujaban llorando las pupilas de un asesino. Pero el dos no ha sido nunca un número porque es una angustia y su sombra, porque es la guitarra donde el amor se desespera, porque es la demostración de otro infinito que no es suyo y es las murallas del muerto y el castigo de la nueva resurrección sin finales. Los muertos odian el número dos, pero el número d...
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Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando. Em qualquer língua se entende essa palavra. Sem qualquer língua. O sangue sabe-o. Uma inteligência esparsa aprende esse convite inadiável. Búzios somos, moendo a vida inteira essa música incessante. Morte, morte. Levamos toda a vida morrendo em surdina. No trabalho, no amor, acordados, em sonho. A vida é a vigilância da morte, até que o seu fogo veemente nos consuma sem a consumir. Cecília Meireles

Noche de amor insomne

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Noche arriba los dos con luna llena, yo me puse a llorar y tú reías. Tu desdén era un dios, las penas mías momentos y palomas en cadenas. Noche abajo los dos. Cristal de pena, llorabas tú por hondas lejanías sobre tu débil corazón de arena. La aurora nos unió sobre la cama, las bocas puestas sobre el chorro helado de una sangre sin fin que se derrama. Y el sol entró por el balcón cerrado y el coral de la vida abrió su rama sobre mi corazón amortajado. Garcia Lorca

Morte de D. Quixote

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Pobres, gritai comigo: Abaixo o D. Quixote com cabeça de nuvens e espada de papelão! (E viva o Chicote no silêncio da nossa Mão!) Pobres, gritai comigo: Abaixo o D. Quixote que só nos emperra de neblina! (E viva o Archote que incendeia a terra, mas ilumina!) Pobres, gritai comigo: Abaixo o cavaleiro de lança de soluços e bola de sabão no elmo de barbeiro! (E vivam os nossos Pulsos que, num repelão, hão-de rasgar o nevoeiro!) José Gomes Ferreira

Ciudad Sin Sueño

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(Nocturno de Brooklyn Bridge) No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie. No duerme nadie. Las criaturas de la luna huelen y rondan sus cabañas. Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan y el que huye con el corazón roto encontrará por las esquinas al increíble cocodrilo quieto bajo la tierna protesta de los astros. No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie. No duerme nadie. Hay un muerto en el cementerio más lejano que se queja tres años porque tiene un paisaje seco en la rodilla; y el niño que enterraron esta mañana lloraba tanto que hubo necesidad de llamar a los perros para que callase. No es sueño la vida. ¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta! Nos caemos por las escaleras para comer la tierra húmeda o subimos al filo de la nieve con el coro de las dalias muertas. Pero no hay olvido, ni sueño: carne viva. Los besos atan las bocas en una maraña de venas recientes y al que le duele su dolor le dolerá sin descanso y al que teme la muerte la llevará sobre sus hombros. Un día...
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Rio Abaixo Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga... Quase noite. Ao sabor do curso lento Da água, que as margens em redor alaga, Seguimos. Curva os bambuais o vento. Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento, Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga A derradeira luz do firmamento... Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga. Um silêncio tristíssimo por tudo Se espalha. Mas a lua lentamente Surge na fímbria do horizonte mudo: E o seu reflexo pálido, embebido Como um gládio de prata na corrente, Rasga o seio do rio adormecido. Olavo Bilac

O navio de espelhos

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O navio de espelhos não navega cavalga Seu mar é a floresta que lhe serve de nível Ao crepúsculo espelha sol e lua nos flancos Por isso o tempo gosta de deitar-se com ele Os armadores não amam a sua rota clara (Vista do movimento dir-se-ia que pára) Quando chega à cidade nenhum cais o abriga O seu porão traz nada nada leva à partida Vozes e ar pesado é tudo o que transporta (E no mastro espelhado uma espécie de porta) Seus dez mil capitães têm o mesmo rosto A mesma cinta escura o mesmo grau e posto Quando um se revolta há dez mil insurrectos (Como os olhos da mosca reflectem os objectos) E quando um deles ala o corpo sobre os mastros e escruta o mar do fundo Toda a nave cavalga (como no espaço os astros) Do princípio do mundo até ao fim do mundo Mário Cesariny

MAR PORTUGUÊS

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Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quere passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. in Mensagem, Fernando Pessoa
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Chamo-Te Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio E suportar é o tempo mais comprido. Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, Que um só de Teus olhares me purifique e acabe. Há muitas coisas que não quero ver. Peço-Te que sejas o presente. Peço-Te que inundes tudo. E que o Teu reino antes do tempo venha E se derrame sobre a Terra Em Primavera feroz precipitado. Sophia de Mello Breyner Andresen
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«ESTÃO PODRES AS PALAVRAS....» Estão podres as palavras - de passarem por sórdidas mentiras de canalhas que as usam ao revés como o carácter deles. E podres de sonâmbulos os povos ante a maldade à solta de que vivem a paz quotidiana da injustiça. Usá-las puras - como serão puras, se caem no silêncio em que os mais puros não sabem já onde a limpeza acaba e a corrupção começa? Como serão puras se logo a infâmia as cobre de seu cuspo? Estão podres: e com elas apodrece a mundo e se dissolve em lama a criação do homem que só persiste em todos livremente onde as palavras fiquem como torres erguidas sexo de homens entre o céu e a terra. Jorge de Sena
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Greguerías Si vais a la felicidad llevad sombrilla. _________________ El reloj es una bomba de tiempo, de más o menos tiempo. _________________ Después de la emigración no queda más que la transmigración. _________________ Los recuerdos encogen como las camisetas. _________________ La felicidad consiste en ser un desgraciado que se sienta feliz. _________________ El reloj no existe en las horas felices. _________________ Somos lazarillos de nuestros sueños. _________________ Aburrirse es besar a la muerte. _________________ Los monos no encanecen porque no piensan. _________________ La manera de curarse el corazón es ahorrando presentimientos. _________________ Nostalgia: neuralgia de los recuerdos. _________________ El sueño es un depósito de objetos extraviados. _________________ El filósofo antiguo sacaba la filosofía ordeñándose la barba. _________________ Hay que ser un poco idiota en la vida, pues si no se aprovechan los demás y lo son sólo ellos. _________________ Era tan moral ...
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A Rosa de Hiroxima Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexatas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh não se esqueçam Da rosa da rosa Da rosa de Hiroxima A rosa hereditária A rosa radioativa Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atômica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada. Vinicius de Moraes
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Vinícius De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente Fez-se do amor próximo distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente. Vinicius de Moraes
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A palavra impossível Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim A vida que não se troca por palavras. Deram-mo para eu guardar dentro de mim As vozes que só em mim são verdadeiras. Deram-mo para eu guardar dentro de mim A impossível palavra da verdade. Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível, Para eu guardar dentro de mim, Para eu ignorar dentro de mim A única palavra sem disfarce - A Palavra que nunca se profere. Adolfo Casais Monteiro
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O Tempo não sabe nada o tempo não sabe nada o tempo não tem razão o tempo nunca existiu é da nossa invenção se abandonarmos as horas para nos sentirmos sós meu amor o tempo somos nós o espaço tem o volume da imaginação além do nosso horizonte existe outra dimensão o espaço foi construído sem princípio nem fim meu amor tu cabes dentro de mim o meu tesouro és tu eternamente tu não há passos divergentes para quem se quer encontrar a nossa história começa na total escuridão onde o mistério ultrapassa a nossa compreensão a nossa história é o esforço para alcançar a luz meu amor o impossível seduz o meu tesouro és tu eternamente tu não há passos divergentes para quem se quer encontrar Jorge Palma

Greguerías-Amor

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Como daba besos lentos duraban más sus amores. _________________ A veces un beso no es más que chewing gum compartido. _________________ La reja es el teléfono de más corto hilo para hablar de amor. _________________ Amor es despertar a una mujer y que no se indigne. _________________ Daba besos de segunda boca. _________________ El primer beso es un robo. _________________ Cuando una mujer te plancha la solapa con la mano ya estás perdido. _________________ Cuando la mujer pide ensalada de frutas para dos perfecciona el pecado original. _________________ El amor nace del deseo repentino de hacer eterno lo pasajero. _________________ En la manera de matar la colilla contra el cenicero se reconoce a la mujer cruel. _________________ Aquella mujer me miró como a un taxi desocupado. _________________ Hay matrimonios que se dan la espalda mientras duermen para que el uno no le robe al otro los sueños ideales. _________________ Si os tiembla la cerilla al dar lumbre a una mujer, estáis perd...

I CANNOT live with you.

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Emily Dickinson (1830–86). Complete Poems. 1924. Part Three: Love XII I CANNOT live with you, It would be life, And life is over there Behind the shelf The sexton keeps the key to, Putting up Our life, his porcelain, Like a cup Discarded of the housewife, Quaint or broken; A newer Sèvres pleases, Old ones crack. I could not die with you, For one must wait To shut the other’s gaze down,— You could not. And I, could I stand by And see you freeze, Without my right of frost, Death’s privilege? Nor could I rise with you, Because your face Would put out Jesus’, That new grace Glow plain and foreign On my homesick eye, Except that you, than he Shone closer by. They ’d judge us—how? For you served Heaven, you know, Or sought to; I could not, Because you saturated sight, And I had no more eyes For sordid excellence As Paradise. And were you lost, I would be, Though my name Rang loudest On the heavenly fame. And were you saved, And I condemned to be Where you were not, That self were hell to me....

Solidão

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Solidão Ó solidão! À noite, quando, estranho, Vagueio sem destino, pelas ruas, O mar todo é de pedra... E continuas. Todo o vento é poeira... E continuas. A Lua, fria, pesa... E continuas. Uma hora passa e outra... E continuas. Nas minhas mãos vazias continuas, No meu sexo indomável continuas, Na minha branca insónia continuas, Paro como quem foge. E continuas. Chamo por toda a gente. E continuas. Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas. Invento um verso... E rasgo-o. E continuas. Eterna, continuas... Mas sei por fim que sou do teu tamanho! Pedro Homem de Mello