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Dizem que a paixão o conheceu dizem que a paixão o conheceu mas hoje vive escondido nuns óculos escuros senta-se no estremecer da noite enumera o que lhe sobejou do adolescente rosto turvo pela ligeira náusea da velhice conhece a solidão de quem permanece acordado quase sempre estendido ao lado do sono pressente o suave esvoaçar da idade ergue-se para o espelho que lhe devolve um sorriso tamanho do medo dizem que vive na transparência do sonho à beira-mar envelheceu vagarosamente sem que nenhuma ternura nenhuma alegria nunhum ofício cantante o tenha convencido a permanecer entre os vivos Al Berto
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Madrigal Toda a manhã fui a flor impaciente por abrir. Toda a manhã fui ardor do sol no teu telhado. Toda a manhã fui ave inquieta no teu jardim. Toda a manhã fui ave ou sol ou flor secretamente ao pé de ti. Eugénio de Andrade
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Adeus, Lisboa Vou-me até à Outra Banda no barquinho da carreira. Faz que anda mas não anda; parece de brincadeira. Planta-se o homem no leme. Tudo ginga, range e treme. Bufa o vapor na caldeira. Um menino solta um grito; assustou-se com o apito do barquinho da carreira. Todo ancho, tremelica como um boneco de corda. Nem sei se vai ou se fica. Só se vê que tremelica e oscila de borda a borda. Chapas de sol, coruscantes como lâminas de espadas, fendem as águas rolantes esparrinhando flamejantes lantejoulas nacaradas. Sob o dourado chuveiro, o barquinho terno e mole, vai-se afastando, ronceiro, na peugada do Sol. A cada volta das pás moendo as águas vizinhas, nos remoinhos que faz, nos salpicos que me traz e me enchem de camarinhas, há fagulhas rutilantes, esquírolas de marcassites, polimentos de pirites, clivagens de diamantes, Numa hipnose coletiva, como um friso de embruxados, ao longe os olhos cravados em transe de expectativa, todos juntos, na amurada, numa sonolência de ópio, vemos,...
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Me gustas cuando callas porque estás como ausente, y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca. Parece que los ojos se te hubieran volado y parece que un beso te cerrara la boca. Como todas las cosas están llenas de mi alma emerges de las cosas, llena del alma mía. Mariposa de sueño, te pareces a mi alma, y te pareces a la palabra melancolía. Me gustas cuando callas y estás como distante. Y estás como quejándote, mariposa en arrullo. Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza: déjame que me calle con el silencio tuyo. Déjame que te hable también con tu silencio claro como una lámpara, simple como un anillo. Eres como la noche, callada y constelada. Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo. Me gustas cuando callas porque estás como ausente. Distante y dolorosa como si hubieras muerto. Una palabra entonces, una sonrisa bastan. Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto. Pablo Neruda

Se perguntarem: das artes do mundo?

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Se perguntarem: das artes do mundo? Das artes do mundo escolho a de ver cometas despenharem-se nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos, charcos entre elas. Quero na escuridão revolvida pelas luzes ganhar baptismo, ofício. Queimado nas orlas de fogo das poças. O meu nome é esse. E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites caem dentro dos dias - e eu estudo astros desmoronados, mananciais, o segredo. Herberto Helder

Os paraísos artificiais

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Na minha terra, não há terra, há ruas; mesmo as colinas são de prédios altos com renda muito mais alta. Na minha terra, não há árvores nem flores. As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês, e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores. O cântico das aves — não há cânticos, mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º. E a música do vento é frio nos pardieiros. Na minha terra, porém, não há pardieiros, que são todos na Pérsia ou na China, ou em países inefáveis. A minha terra não é inefável. A vida na minha terra é que é inefável. Inefável é o que não pode ser dito. Jorge de Sena

Claridade

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Claridade Clareou. Vieram pombas e sol, e, de mistura com Sonho, pousou tudo num telhado... (Eu, destas grades, a ver, desconfiado.) Depois, uma rapariga loira, (era loira) num mirante estendeu roupa num cordel: Roupa branca, remendada, que se via que era de gente lavada, e só por isso aquecia... E não foi preciso mais: Logo a alma clareou por sua vez. Logo o coração parado bateu a grande pancada da vida com sol e pombas e roupa branca, lavada. Miguel Torga Lisboa, Cadeia do Aljube, 1 de Fevereiro de 1940

Navios-fantasmas

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Navios-fantasmas O arabesco fantástico do fumo Do meu cigarro traça o que disseste, A azul, no ar, e o que me escreveste, E tudo o que sonhastes e eu presumo. Para a minha alma estática e sem rumo, A lembrança de tudo o que me deste Passa como o navio que perdestes, No arabesco fantástico do fumo... Lá vão! Lá vão! Sem velas e sem mastros, Têm o brilho rutilante de astros, Navios-fantasmas, perdem-se a distância! Vão-me buscar, sem mastros e sem velas, Noiva-menina, a doidas caravelas, Ao ignoto País da minha infância... Florbela Espanca Poetisa do simbolismo

Abismo

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Olho o Tejo, e de tal arte Que me esquece olhar olhando, E súbito isto me bate De encontro ao devaneando — O que é sério, e correr? O que é está-lo eu a ver? Sinto de repente pouco, Vácuo, o momento, o lugar. Tudo de repente é oco — Mesmo o meu estar a pensar. Tudo — eu e o mundo em redor — Fica mais que exterior. Perde tudo o ser, ficar, E do pensar se me some. Fico sem poder ligar Ser, idéia, alma de nome A mim, à terra e aos céus... E súbito encontro Deus. Fernando Pessoa

Queixa das almas jovens censuradas

Queixa das almas jovens censuradas Dão-nos um lírio e um canivete e uma alma para ir à escola mais um letreiro que promete raízes, hastes e corola Dão-nos um mapa imaginário que tem a forma de uma cidade mais um relógio e um calendário onde não vem a nossa idade Dão-nos a honra de manequim para dar corda à nossa ausência. Dão-nos um prémio de ser assim sem pecado e sem inocência Dão-nos um barco e um chapéu para tirarmos o retrato Dão-nos bilhetes para o céu levado à cena num teatro Penteiam-nos os crâneos ermos com as cabeleiras das avós para jamais nos parecermos connosco quando estamos sós Dão-nos um bolo que é a história da nossa historia sem enredo e não nos soa na memória outra palavra que o medo Temos fantasmas tão educados que adormecemos no seu ombro somos vazios despovoados de personagens de assombro Dão-nos a capa do evangelho e um pacote de tabaco dão-nos um pente e um espelho pra pentearmos um macaco Dão-nos um cravo preso à cabeça e uma cabeça presa à cintura para que o c...

Mulheres correndo, correndo pela noite

Mulheres correndo, correndo pela noite. O som de mulheres correndo, lembradas, correndo como éguas abertas, como sonoras corredoras magnólias. Mulheres pela noite dentro levando nas patas grandiosos lenços brancos. Correndo com lenços muito vivos nas patas pela noite dentro. Lenços vivos com suas patas abertas como magnólias correndo, lembradas, patas pela noite viva. Levando, lembrando, correndo. É o som delas batendo como estrelas nas portas. O céu por cima, as crinas negras batendo: é o som delas. Lembradas, correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando. As grandiosas patas brancas abertas no som, à porta, com o céu lembrando. Crinas correndo pela noite, lenços vivos batendo como magnólias levadas pela noite, abertas, correndo, lembrando. De repente, as letras. O rosto sufocado como se fosse abril num canto da noite. O rosto no meio das letras, sufocado a um canto, de repente. Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços sufocados, lembrando letras, levando lenços, letras - nas...

Laranja, peso, potência

Laranja, peso, potência. Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância. A matéria pensa. As madeiras incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar, tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja recebe soberania. E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça. A ferida que a gente é: de mundo e invenção. Laranja assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa inocência da terra. Herberto Helder

Poema manuscrito nas folhas brancas de um livro e lá esquecido

Não teimes, não insistas, não repitas, mas vive como quem, teimando, insiste, e, porque insiste, como que repete. Esse das sombras o silêncio fluido escoando-se por ti quando não passas, parado que ouves, não mais é que o tempo de hoje em que vives só alheias vidas, de ti alheadas qual de ti vividas. Por outro tempo te criaste impuro, difuso e firme, no clamor de versos que os tempos de hoje reconstroem como delidas cartas um fogacho acendem. Outro que seja, é teu, pois o escutaste na dor de apenas ser, na dor de ouvir quão desatentos menos homens são os homens todos. Teu, sem que teu seja, que destes e dos outros se fará serena ciência de possuírem tudo o que juntares para ser roubado, quando, parado no silêncio fluido, se escoava nele o próprio estar na vida, atento como estavas, poeta como eras daquele ser não-sendo que eram todos em ti, dentro de ti, à tua volta. Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta (1969)

Almada, todo Almada.

Cena do ódio A Álvaro de Campos a dedicação intensa de todos os meus avatares. Foi escrito durante os três dias e as três noites que durou a revolução de 14 de Maio de 1915 Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis, Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado, e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu! Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés! O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes, Inferno a arder o Meu Cantar! Sou Vermêlho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes dos cossácos! Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula! Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta! Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol! Ladram-Me a Vida por vivê-La e só Me deram Uma! Hão-de lati-La por sina! Agora quero vivê-La! Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina Hei-de Glória desanuviá-La! Hei-de Guindaste içá-La Esfinge da Vala pedestre onde Me querem rir! Hei-de trovão-clarim levá-La Luz às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas! Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia nos Funerais de Mim! Hei-de Alfange-Ma...

Poema do fecho-éclair

Filipe II tinha um colar de oiro, tinha um colar de oiro com pedras rubis. Cingia a cintura com cinto de oiro, com fivela de oiro, olho de perdiz. Comia num prato de prata lavrada girafa trufada, rissóis de serpente. O copo era um gomo que em flor desabrocha, de cristal de rocha do mais transparente. Andava nas salas forradas de Arrás, com panos por cima, pela frente e por trás. Tapetes flamengos, combates de galos, alões e podengos, falcões e cavalos. Dormia na cama de prata maciça com dossel de lhama de franja roliça. Na mesa do canto vermelho damasco, e a tíbia de um santo guardada num frasco. Foi dono da Terra, foi senhor do Mundo, nada lhe faltava, Filipe Segundo. Tinha oiro e prata, pedras nunca vistas, safiras, topázios, rubis, ametistas. Tinha tudo, tudo, sem peso nem conta, bragas de veludo, peliças de lontra. Um homem tão grande tem tudo o que quer. O que ele não tinha era um fecho-éclair. António Gedeão, Poesias completas

Litania para o Natal de 1967

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto num sótão num porão numa cave inundada Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto dentro de um foguetão reduzido a sucata Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto numa casa de Hanói ontem bombardeada Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto num presépio de lama e de sangue e de cisco Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto para ter amanhã a suspeita que existe Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto tem no ano dois mil a idade de Cristo Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto vê-lo-emos depois de chicote no templo Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto e anda já um terror no látego do vento Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto para nos pedir contas do nosso tempo David Mourão-Ferreira, Lira de bolso

uma certa quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura de gente à procura duma certa quantidade Soma: uma paisagem extremamente à procura o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha) e o problema do quarto-atelier-avião Entretanto e justamente quando já não eram precisos apareceram os poetas à procura e a querer multiplicar tudo por dez má raça que eles têm ou muito inteligentes ou muito estúpidos pois uma e outra coisa eles são Jesus Aristóteles Platão abrem o mapa: dói aqui dói acolá E resulta que também estes andavam à procura duma certa quantidade de gente que saía à procura mas por outras bandas bandas que por seu turno também procuravam imenso um jeito certo de andar à procura deles visto todos buscarem quem andasse incautamente por ali a procurar Que susto se de repente alguém a sério encontrasse que certo se esse alguém fosse um adolescente como se é uma nuvem um atelier um astro Mário Cesariny

O Poeta

Trabalha agora na importação e exportação. Importa metáforas, exporta alegorias. Podia ser um trabalhador por conta própria, um desses que preenche cadernos de folha azul com números de deve e haver. De facto, o que deve são palavras; e o que tem é esse vazio de frases que lhe acontece quando se encosta ao vidro, no inverno, e a chuva cai do outro lado. Então, pensa que poderia importar o sol e exportar as nuvens. Poderia ser um trabalhador do tempo. Mas, de certo modo, a sua prática confunde-se com a de um escultor do movimento. Fere, com a pedra do instante, o que passa a caminho da eternidade; suspende o gesto que sonha o céu; e fixa, na dureza da noite, o bater de asas, o azul, a sábia interrupção da morte. Nuno Júdice

Língua mater dolorosa

Tu que foste do Lácio a flor do pinho dos trovadores a leda a bem-talhada de oito séculos a cal o pão e o vinho de Luís Vaz a chama joalhada tu o casulo o vaso o ventre o ninho e que sôbolos rios pendurada foste a harpa lunar do peregrino tu que depois de ti não há mais nada, eis-te bobo da corja coribântica: a canalha apedreja-te a semântica e os teus verbos feridos vão de maca. Já na glote és cascalho és malho és má­língua, de brisa barco e bronze foste a língua; língua serás ainda... mas de vaca. Natália Correia

Laranja, peso, potência.

Laranja, peso, potência. Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância. A matéria pensa. As madeiras incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar, tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja recebe soberania. E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça. A ferida que a gente é: de mundo e invenção. Laranja assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa inocência da terra. Herberto Helder