Mensagens

Joelho

Ponho um beijo demorado no topo do teu joelho Desço-te a perna arrastando a saliva pelo meio Onde a língua segue o trilho até onde vai o beijo Não há nada que disfarce de ti aquilo que vejo Em torno um mar tão revolto no cume o cimo do tempo E os lençóis desalinhados como se fosse de vento Volto então ao teu joelho entreabrindo-te as pernas Deixando a boca faminta seguir o desejo nelas. Maria Teresa Horta

O homem cuja orelha cresceu

...Acordou no meio da noite com o barulhinho da orelha crescendo. Dormiu de novo e quando acordou na manhã seguinte, o quarto se enchera com a orelha. Ela estava em cima do guarda-roupa, embaixo da cama, na pia. E forçava a porta. Ao meio-dia, a orelha derrubou a porta, saiu pelo corredor. Duas horas mais tarde, encheu o corredor. Inundou a casa. Os hospedes fugiram para a rua. Chamaram a polícia, o corpo de bombeiros. A orelha saiu para o quintal. Para a rua... Retirado do projecto releituras que entretando, retirou do livro "Os melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão", seleção de Deonísio da Silva, Global Editora ? São Paulo, 1993, pág. 135.

Foguetabraze e outros blogs

O problema não é nem do Foguetabraze nem sequer Nacional, é do Blçogger mesmo. Blogger Status Thursday, March 16, 2006 The filer that we have been having trouble with in the last few days failed again. Those blogs that are stored on the bad filer are temporarily not available for publishing and viewing. We are working on replacing the filer and restoring access to the blogs affected.Update (7 am, March 17): we are still in the process migrating data off of the bad filer. We sincerely apologize for the continuing problems. Posted by Pal at 21:14 PST

Foguetabraze banido da blogosfera?

O Foguetabraze não está acessivel aos seus leitores, já devem ter dado por isso. Enquanto o assunto não se resolve, não sei como nem por quem, postarei a partir daqui, desse também seu Corsário das Ilhas. Segundo consegui apurar, vários blogs estão com o mesmo problema, estou em contacto com o blogger, permanentemente, na tentativa de resolver o assunto com a brevidade possível.

Cuerpo de mujer...

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos, te pareces al mundo en tu actitud de entrega. Mi cuerpo de labriego salvaje te socava y hace saltar el hijo del fondo de la tierra. Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros y en mí la noche entraba su invasión poderosa. Para sobrevivirme te forjé como un arma, como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda. Pero cae la hora de la venganza, y te amo. Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme. ¡Ah los vasos del pecho! ¡Ah los ojos de ausencia! ¡Ah las rosas del pubis! ¡Ah tu voz lenta y triste! Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia. Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso! Oscuros cauces donde la sed eterna sigue, y la fatiga sigue, y el dolor infinito. Pablo Neruda

Amigos

AMIGOS! TENHO amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências? a alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E...

D. Sebastião, rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria? Fernando Pessoa, Mensagem (1934)

IF

If you can keep your head when all about you Are losing theirs and blaming it on you; If you can trust yourself when all men doubt you, But make allowance for their doubting too; If you can wait and not be tired by waiting, Or, being lied about, don't deal in lies, Or, being hated, don't give way to hating, And yet don't look too good, nor talk too wise; If you can dream - and not make dreams your master; If you can think - and not make thoughts your aim; If you can meet with triumph and disaster And treat those two impostors just the same; If you can bear to hear the truth you've spoken Twisted by knaves to make a trap for fools, Or watch the things you gave your life to broken, And stop and build 'em up with worn-out tools; If you can make one heap of all your winnings And risk it on one turn of pitch-and-toss, And lose, and start again at your beginnings And never breathe a word about your loss; If you can force your heart and nerve and sinew To serve your turn l...

El que se los comió

Parece que ha habido un hombre de instintos temerarios que se ha comido unos senos de mujer, como se comen unas naranjas sin mondarlas ni repartirlas en gajos, sino mordiéndolas y chupando. Quizá unos senos comidos con el valiente apetito con que se podría realizar ese acto, sepan a ancas de rana o cosa por el estilo. ¿Y su pezón? Su pezón debe saber como el tostado pezón de los panes que acaban en punta, en una punta exquisita. También parece que algunos senos deben saber a guayaba. (Ramón Gómez de la Serna, Senos, 1918; Buenos Aires: Albino, 1979.)

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possiblidade do soco; Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu que verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala co...

Sobre a neve

Sobre mim, teu desdém pesado jaz Como um manto de neve... Quem dissera Porque tombou em plena Primavera Toda essa neve que o Inverno traz! Coroavas-me inda há pouco de lilás E de rosas silvestres... quando eu era Aquela que o Destino prometera Aos teus rútilos sonhos de rapaz! Dos beijos que me deste não te importas, Asas paradas de andorinhas mortas... Folhas de Outono e correria louca... Mas inda um dia, em mim, ébrio de cor, Há-de nascer um roseiral em flor Ao sol da Primavera doutra boca! Florbela Espanca

Laranja, peso, potência

Laranja, peso, potência. Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância. A matéria pensa. As madeiras incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar, tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja recebe soberania. E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça. A ferida que a gente é: de mundo e invenção. Laranja assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa inocência da terra. Herberto Helder

As putas da Avenida

Eu vi gelar as putas da Avenida ao griso de Janeiro e tive pena do que elas chamam em jargão a vida com um requebro triste de açucena vi-as às duas e às três falando como se fala antes de entrar em cena o gesto já compondo à voz de mando do director fatal que lhes ordena essa pose de flor recém-cortada que para as mais batidas não é nada senão fingirem lírios da Lorena mas a todas o griso ia aturdindo e eu que do trabalho tinha vindo calçando as luvas senti tanta pena Fernando Assis Pacheco

Se tanta pena tenho merecida

Se tanta pena tenho merecida Em pago de sofrer tantas durezas, Provai, Senhora, em mim vossas cruezas, Que aqui tendes u~a alma oferecida. Nela experimentai, se sois servida, Desprezos, desfavores e asperezas, Que mores sofrimentos e firmezas Sustentarei na guerra desta vida. Mas contra vosso olhos quais serão? Forçado é que tudo se lhe renda, Mas porei por escudo o coração. Porque, em tão dura e áspera contenda, É bem que, pois não acho defensão, Com me meter nas lanças me defenda. Luís de Camões

Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país. Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio - é tudo o que tem quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas). Há quem te queira ignorada e fale pátria em teu nome. Eu vi-te ...

Narciso

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia, Dobrado em dois sobre o meu próprio poço... Ah, que terrível face e que arcabouço Este meu corpo lânguido escondia! Ó boca tumular, cerrada e fria, Cujo silêncio esfíngico eu bem ouço!... Ó lindos olhos sôfregos, de moço, Numa fronte a suar melancolia!... Assim me desejei nestas imagens. Meus poemas requintados e selvagens, O meu Desejo os sulca de vermelho: Que eu vivo à espera dessa noite estranha, Noite de amor em que me goze e tenha, ... Lá no fundo do poço em que me espelho! José Régio

Arma secreta

Tenho uma arma secreta ao serviço das nações. Não tem carga nem espoleta mas dipara em linha recta mais longe que os foguetões. Não é Júpiter, nem Thor, nem Snark ou outros que tais. É coisa muito melhor que todo o vasto teor dos Cabos Canaverais. A potência destinada às rotações da turbina não vem da nafta queimada, nem é de água oxigenada nem de ergóis de furalina. Erecta, na noite erguida, em alerta permanente, espera o sinal da partida. Podia chamar-se VIDA. Chama-se AMOR, simplesmente. António Gedeão , Poesias Completas

Creio nos anjos que andam pelo mundo

creio nos anjos que andam pelo mundo, creio na deusa com olhos de diamantes, creio em amores lunares com piano ao fundo, creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes; creio num engenho que falta mais fecundo de harmonizar as partes dissonantes, creio que tudo é eterno num segundo, creio num céu futuro que houve dantes, creio nos deuses de um astral mais puro, na flor humilde que se encosta ao muro, creio na carne que enfeitiça o além, creio no incrível, nas coisas assombrosas, na ocupação do mundo pelas rosas, creio que o amor tem asas de ouro. amém. Natália Correia

Poema para uma ideia de tempo

Sabes do peso das folhas quando caem no Outono Sabes das cinzas que sobem pelo céu da boca do vulcão que acordou Tens a pintura dos anos No corpo que envelhece Todo o teu corpo Entre a vida e a morte Entre o início e o fim Entre mar Mundo Universo Sabes do Big-Bang e do espaço que se expande Sabes de uma teoria e de buracos negros e cordas Sabes da areia que se esvai no diminuto aperto da ampulheta Sabes do ritmo da música e de ondas que andam os oceanos O evaporar do poema A história Dos homens De nascimentos, mulheres Paixões que se imortalizam em deixas de teatro Ódios, que criam guerras Que criam lágrimas Nos olhos do soldado que é abatido na trincheira em mil novecentos e dezassete Sabes também que a tua voz é como uma folha de Outono E que um poema tem apenas a eternidade dos olhos de quem o lê. Pedro de Mendoza

Dois poetas, o mesmo mote

Descalça vai pera a fonte Descalça vai pera a fonte Lianor pela verdura; Vai fermosa, e não segura. Leva na cabeça o pote, O testo nas mãos de prata, Cinta de fina escarlata, Sainho de camalote; Traz a vasquinha de cote, Mais branca que a neve pura. Vai fermosa, e não segura. Descobre a touca a garganta, Cabelos de ouro entraçado, Fita de cor encarnado, Tão linda que o mundo espanta. Chove nela graça tanta, Que dá graça à fermosura. Vai fermosa, e não segura. Luís de Camões ------------------------------------------- Poema da auto-estrada Voando vai para a praia Leonor na estrada preta. Vai na brasa, de lambreta. Leva calções de pirata, vermelho de alizarina, modelando a coxa fina, de impaciente nervura. como guache lustroso, amarelo de idantreno, blusinha de terileno desfraldada na cintura. Fuge, fuge, Leonoreta: Vai na brasa, de lambreta. Agarrada ao companheiro na volúpia da escapada pincha no banco traseiro em cada volta da estrada. Grita de medo fingido, que o receio não é com ela...