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Poema para uma ideia de tempo

Sabes do peso das folhas quando caem no Outono Sabes das cinzas que sobem pelo céu da boca do vulcão que acordou Tens a pintura dos anos No corpo que envelhece Todo o teu corpo Entre a vida e a morte Entre o início e o fim Entre mar Mundo Universo Sabes do Big-Bang e do espaço que se expande Sabes de uma teoria e de buracos negros e cordas Sabes da areia que se esvai no diminuto aperto da ampulheta Sabes do ritmo da música e de ondas que andam os oceanos O evaporar do poema A história Dos homens De nascimentos, mulheres Paixões que se imortalizam em deixas de teatro Ódios, que criam guerras Que criam lágrimas Nos olhos do soldado que é abatido na trincheira em mil novecentos e dezassete Sabes também que a tua voz é como uma folha de Outono E que um poema tem apenas a eternidade dos olhos de quem o lê. Pedro de Mendoza

Dois poetas, o mesmo mote

Descalça vai pera a fonte Descalça vai pera a fonte Lianor pela verdura; Vai fermosa, e não segura. Leva na cabeça o pote, O testo nas mãos de prata, Cinta de fina escarlata, Sainho de camalote; Traz a vasquinha de cote, Mais branca que a neve pura. Vai fermosa, e não segura. Descobre a touca a garganta, Cabelos de ouro entraçado, Fita de cor encarnado, Tão linda que o mundo espanta. Chove nela graça tanta, Que dá graça à fermosura. Vai fermosa, e não segura. Luís de Camões ------------------------------------------- Poema da auto-estrada Voando vai para a praia Leonor na estrada preta. Vai na brasa, de lambreta. Leva calções de pirata, vermelho de alizarina, modelando a coxa fina, de impaciente nervura. como guache lustroso, amarelo de idantreno, blusinha de terileno desfraldada na cintura. Fuge, fuge, Leonoreta: Vai na brasa, de lambreta. Agarrada ao companheiro na volúpia da escapada pincha no banco traseiro em cada volta da estrada. Grita de medo fingido, que o receio não é com ela...

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem sorte, Sou a irmã do sonho, e desta sorte, Sou a crucificada...a dolorida... Sombra de névoa ténue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida!... Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam triste sem o ser... Sou a que chora sem saber porquê... Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver E que nunca na vida me encontrou! Florbela Espanca , Livro de Mágoas
... Fez-se de espanto o mar da minha vida Súbito tempestuoso no nascimento e na morte na sublime e imprevisível luz do amanhecer nas estrelas da noite velhas de milhões e milhões de anos Fez-se de vento Agora suave e depois mortal Como o passar do tempo Varrendo o Universo negro absoluto O vento criador de ondas Que dançam na superfície dos oceanos Dançam no início e no fim das coisas Na brisa que abraça a manhã Na ideia de amor E na esperança para lá do fim Fez-se o meu corpo como uma onda na praia apenas um momento na vida do Universo Pedro de Mendoza
As musas cegas, VII Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar. Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois, ressoando violentamente pelos corredores e paredes e pátios desta casa que eu sou. Que eu serei até não sei quando. É uma doce pancada à porta, alguma coisa que desfaz e refaz um homem. Uma pancada breve, breve - e eu estremeço como um archote. Eu diria que cantam, depois de baterem, que a noite se move um pouco para a frente, para a eternidade. Eu diria que sangra um ponto secreto do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente ou se queima como uma face. Escuta: que a noite vagarosamente se queima como a minha face. Essa criança tem boca, há tantas finas raízes que sobem do meu sangue. Um novo instrumento, uma taça situou-se na terra, e há tantas finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia, uma flor, uma pequena lira, podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo - um novo instrumento rodeado pelas campânulas inclinadas, por ligeiras pedras húmidas, pelo...
ODA AL CALDILLO DE CONGRIO EN el mar tormentoso de Chile vive el rosado congrio, gigante anguila de nevada carne. Y en las ollas chilenas, en la costa, nació el caldillo grávido y suculento, provechoso. Lleven a la cocina el congrio desollado, su piel manchada cede como un guante y al descubierto queda entonces el racimo del mar, el congrio tierno reluce ya desnudo, preparado para nuestro apetito. Ahora recoges ajos, acaricia primero ese marfil precioso, huele su fragancia iracunda, entonces deja el ajo picado caer con la cebolla y el tomate hasta que la cebolla tenga color de oro. Mientras tanto se cuecen con el vapor los regios camarones marinos y cuando ya llegaron a su punto, cuando cuajó el sabor en una salsa formada por el jugo del océano y por el agua clara que desprendió la luz de la cebolla, entonces que entre el congrio y se sumerja en gloria, que en la olla se aceite, se contraiga y se impregne. Ya sólo es necesario dejar en el manjar caer la crema como una rosa espesa, y al...
Não basta abrir a janela Não basta abrir a janela Para ver os campos e o rio. Não é bastante não ser cego Para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. Há só cada um de nós, como uma cave. Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, Que nunca é o que se vê quando se abre a janela. Falas de civilização, e de não dever ser, Ou de não dever ser assim. Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos, Com as cousas humanas postas desta maneira. Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos. Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor. Escuto sem te ouvir. Para que te quereria eu ouvir? Ouvindo-te nada ficaria sabendo. Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo. Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres. Ai de ti e de todos que levam a vida A querer inventar a máquina de fazer felicidade! Entre o que vejo de um ...
"Greguerías" sobre as Cidades Nerviosismo de la ciudad: no poder abrir el paquetito de azúcar para el café. _________________ Venecia es el sitio en que navegan los violines. _________________ Muelle: rúbrica del acero. _________________ El Coliseo en ruinas es como una taza rota del desayuno de los siglos. _________________ Entre los carriles de la vía del tren crecen las flores suicidas. _________________ Lo que más duerme en la noche son las torres. _________________ La mañana está llena de turistas buscando casas de cambio. _________________ Los invernaderos son las cárceles modelos de las plantas. _________________ Los arcos de triunfo son elefantes petrificados. _________________ El obelisco es la palmatoria de los siglos. _________________ Al oír la sirena parece que el barco se suena la nariz. _________________ Hay una campana que suena en el alba y que no está en ningún campanario. _________________ Al pasar un barco entre dos casas, parece un barco de teatro entre b...
"Greguerías" sobre Animais Un chino inventó al gato. _________________ El langostino huele a todo el mar. _________________ Nutria: una rata con gabán de señora. _________________ Lo que más denigra al perro ?y él lo sabe? es el rascarse la cabeza con la pata de atrás. _________________ La lagartija es el broche de las tapias. _________________ Todos los pájaros son mancos. _________________ Búho: gato emplumado. _________________ El murciélago vuela con la capa puesta. _________________ Los cuervos se tiñen. _________________ La mosca se posa sobre lo escrito, lo lee y se va como despreciando lo que ha leído. ¡Es el más exigente crítico literario! _________________ Los cocodrilos están siempre en pleno concurso de bostezos. _________________ La serpiente mide el bosque para saber cuántos metros tiene y decírselo al ángel de las estadísticas. _________________ El camello tiene cara de cordero jorobado. _________________ La inmortalidad del cangrejo consiste en andar hacia atr...
Greguerías sobre o Amor Como daba besos lentos duraban más sus amores. _________________ A veces un beso no es más que chewing gum compartido. _________________ La reja es el teléfono de más corto hilo para hablar de amor. _________________ Amor es despertar a una mujer y que no se indigne. _________________ Daba besos de segunda boca. _________________ El primer beso es un robo. _________________ Cuando una mujer te plancha la solapa con la mano ya estás perdido. _________________ Cuando la mujer pide ensalada de frutas para dos perfecciona el pecado original. _________________ El amor nace del deseo repentino de hacer eterno lo pasajero. _________________ En la manera de matar la colilla contra el cenicero se reconoce a la mujer cruel. _________________ Aquella mujer me miró como a un taxi desocupado. _________________ Hay matrimonios que se dan la espalda mientras duermen para que el uno no le robe al otro los sueños ideales. _________________ Si os tiembla la cerilla al dar lumbre...
Ramón Gómez de la Serna Greguerías Con el monóculo, el ojo se vuelve reloj. _________________ Carterista: caballero de la mano en el pecho... de otro. _________________ Los presos a través de la reja ven la libertad a la parrilla. _________________ La raya del pelo es feliz. _________________ La cabeza es la pecera de las ideas. _________________ Al ombligo le falta el botón. _________________ Franklin salía los días de tormenta con un paraguas dotado de pararrayos _________________ Las patillas son los galones de sargento de la cara. _________________ Los bostezos son oes que huyen. _________________ Al pobre botánico no le quedan sino las papeletas de empeño de los árboles. _________________ El apuntador es el eco antes que la palabra. _________________ Los pellizcos estrangulan lunares. _________________ El estornudo es la interjección del silencio. _________________ El que juega dados parece tirar al aire los huesos que le sobran. _________________ Las pulseras representan esclavit...
Os amantes sem dinheiro Tinham o rosto aberto a quem passava. Tinham lendas e mitos e frio no coração. Tinham jardins onde a lua passeava de mãos dadas com a água e um anjo de pedra por irmão. Tinham como toda a gente o milagre de cada dia escorrendo pelos telhados; e olhos de oiro onde ardiam os sonhos mais tresmalhados. Tinham fome e sede como os bichos, e silêncio à roda dos seus passos. Mas a cada gesto que faziam um pássaro nascia dos seus dedos e deslumbrado penetrava nos espaços. Eugénio de Andrade
Trova do Vento que Passa Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país. Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio -- é tudo o que tem quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas). Há quem te queira ignorada e fale pát...
Ode a Eros Eros, Cupido, Amor, pequeno Deus travesso Com quem todos brincamos! Brincando nos ferimos, Ferindo-nos gozamos, Se rimos já choramos, Mal que choramos rimos... Já, voltados do avesso, Por igual o voltamos, O torturamos nós como ele nos tortura, Descemos aos recessos da criatura... Pequenino gigante! Sonhava, ou não sonhava, Quem te representou risonho e pequenino Que de Hércules a clava Não pesa como pesa a tua mão de infante, Nem seu furor destrói Como nos dói Teu riso de menino? Nas tuas leves setas Nas flâmulas gentis Que cantam os poetas E os namorados juvenis, Que longos ópios e letais licores, Que pântanos de lodo e que furores, Que grinaldas de louros e de espinhos, Que abissais labirintos de caminhos! Mascarilha de seda e de veludo Sob a qual o olhar brilha, a boca ri, Que olhar ambíguo ou mudo, Que boca atormentada Não terás além ti Na mascarada? Pai da Crueldade e da Piedade, Filho do Crime e da Beleza, Que infante serás tu, que, desde que há Idade, Aos Ícaros opõe...
A fome de Camões Este vulto, portanto, que caminha Altas horas, ao frio das nortadas, É Camões que se definha Nas ruas de Lisboa abandonadas. É Camões que a sorte vil, mesquinha, Faz em noites de fome torturadas, Ele o velho cantor de heróis guerreiros!... Vagar errante como os vis rafeiros. Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo, O seu amparo e seu bordão no mundo, Morreu-lhe o humilde companheiro antigo, No seu vácuo deixando um vácuo fundo. Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo, Faminto, abandonado e vagabundo, Tenta esmolar também pelas esquinas. Ó lágrimas!... Ó glória! Ó ruínas!... Gomes Leal , A fome de Camões
Estigma Filhos dum deus selvagem e secreto E cobertos de lama, caminhamos Por cidades, Por nuvens E desertos. Ao vento semeamos o que os homens não querem. Ao vento arremessamos as verdades que doem E as palavras que ferem. Da noite que nos gera, e nós amamos, Só os astros trazemos. A treva ficou onde Todos guardamos a certeza oculta Do que nós não dizemos, Mas que somos. José Carlos Ary dos Santos
Carlos Tê / Rui Veloso Andava eu na quarta classe e fiz uma redacção Sobre o que eu queria ser um dia quando crescesse Quero ser um marinheiro, sulcar o azul do mar Vaguear de porto em porto até um dia me cansar Quero ser um saltimbanco, saber truques e cantigas Ser um dos que sobe ao palco e encanta as raparigas A sessôra chamou-me ao palco e deixou-me descomposto Ó menino atolombado, que gracinha de mau gosto Lá fiz outra redacção, quero ser um funcionário Ser zeloso ter patrão, deitar cedo e ter horário Ser um barquinho apagado sem prazer em navegar Humilde e bem comportado sem fazer ondas no mar A sessôra bateu palmas e deu-me muitos louvores Apontou-me como exemplo e passou-me com quinze valores
o dia de amanhã Um dia encontrarei uma porta no caminho que se abrirá com estrondo, apesar de eu não sonhar ser um cavaleiro andante nem andar pela noite escura. Provavelmente não será a porta de nenhum palácio. Não terá história essa porta. Talvez possa descansar da viagem da vida diante dessa porta talvez parar um pouco depois de todos os passos tantos caminhos os percorridos e os não percorridos. Aí, em face da possibilidade de todas as possibilidades próprias do que é desconhecido o corpo regenerará. uma nova vitalidade embriagará o corpo mutilado de tempo. Diante dessa porta talvez o corpo receba um futuro perante a hipótese de escolha talvez o homem que então for eu seja verdadeiramente talvez um dia quando descansar em frente a uma porta que se abre para o dia de amanhã. Pedro de Mendoza
Poema do fecho-éclair Filipe II tinha um colar de oiro, tinha um colar de oiro com pedras rubis. Cingia a cintura com cinto de oiro, com fivela de oiro, olho de perdiz. Comia num prato de prata lavrada girafa trufada, rissóis de serpente. O copo era um gomo que em flor desabrocha, de cristal de rocha do mais transparente. Andava nas salas forradas de Arrás, com panos por cima, pela frente e por trás. Tapetes flamengos, combates de galos, alões e podengos, falcões e cavalos. Dormia na cama de prata maciça com dossel de lhama de franja roliça. Na mesa do canto vermelho damasco, e a tíbia de um santo guardada num frasco. Foi dono da Terra, foi senhor do Mundo, nada lhe faltava, Filipe Segundo. Tinha oiro e prata, pedras nunca vistas, safiras, topázios, rubis, ametistas. Tinha tudo, tudo, sem peso nem conta, bragas de veludo, peliças de lontra. Um homem tão grande tem tudo o que quer. O que ele não tinha era um fecho-éclair. António Gedeão , Poesias completas
Na idade dos porquês Professor diz-me porquê? Por que voa o papagaio que solto no ar que vejo voar tão alto no vento que o meu pensamento não pode alcançar? Professor diz-me porquê? Por que roda o meu pião? Ele não tem nenhuma roda E roda gira rodopia e cai morto no chão... Tenho nove anos professor e há tanto mistério à minha roda que eu queria desvendar! Por que é que o céu é azul? Por que é que marulha o mar? Porquê? Tanto porquê que eu queria saber! E tu que não me queres responder! Tu falas falas professor daquilo que te interessa e que a mim não interessa. Tu obrigas-me a ouvir quando eu quero falar. Obrigas-me a dizer quando eu quero escutar. Se eu vou a descobrir Fazes-me decorar. É a luta professor a luta em vez de amor. Eu sou uma criança. Tu és mais alto mais forte mais poderoso. E a minha lança quebra-se de encontro à tua muralha. Mas enquanto a tua voz zangada ralha tu sabes professor eu fecho-me por dentro faço uma cara resignada e finjo finjo que não penso em nada. Mas p...