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Acordar tarde tocas as flores murchas que alguém te ofereceu quando o rio parou de correr e a noite foi tão luminosa quanto a mota que falhou a curva - e o serviço postal não funcionou no dia seguinte procuras ávido aquilo que o mar não devorou e passas a língua na cola dos selos lambidos por assassinos - e a tua mão segurando a faca cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado dos amantes ocasionais - nada a fazer irás sozinho vida dentro os braços estendidos como se entrasses na água o corpo num arco de pedra tenso simulando a casa onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia Al Berto, Horto de Incêndio
Litania para o Natal de 1967 Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto num sótão num porão numa cave inundada Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto dentro de um foguetão reduzido a sucata Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto numa casa de Hanói ontem bombardeada Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto num presépio de lama e de sangue e de cisco Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto para ter amanhã a suspeita que existe Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto tem no ano dois mil a idade de Cristo Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto vê-lo-emos depois de chicote no templo Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto e anda já um terror no látego do vento Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto para nos pedir contas do nosso tempo David Mourão-Ferreira, Lira de bolso
Natal, e não Dezembro Entremos, apressados, friorentos, numa gruta, no bojo de um navio, num presépio, num prédio, num presídio no prédio que amanhã for demolido... Entremos, inseguros, mas entremos. Entremos e depressa, em qualquer sítio, porque esta noite chama-se Dezembro, porque sofremos, porque temos frio. Entremos, dois a dois: somos duzentos, duzentos mil, doze milhões de nada. Procuremos o rastro de uma casa, a cave, a gruta, o sulco de uma nave... Entremos, despojados, mas entremos. De mãos dadas talvez o fogo nasça, talvez seja Natal e não Dezembro, talvez universal a consoada. David Mourão-Ferreira , Cancioneiro de Natal
Saíu Para A Rua Carlos Tê / Rui Veloso Saiu decidida para a rua Com a carteira castanha E o saia-casaco escuro Tantos anos tantas noites Sem sequer uma loucura Ele saiu sem dizer nada Talvez fosse ao teatro chino Vai regressar de madrugada E acordá-la cheio de vinho Tantos anos tantas noites Sem nunca sentir a paixão Foram já as bodas de prata Comemoradas em solidão Pôs um pouco de baton E um leve toque de pintura Tirou do cabelo o travessão E devolveu ao rosto a candura Saiu para a rua insegura Vageou sem direcção Sorriu a um homem com tremura E sentiu escorrer do coração A humidade quente da loucura
À Noite Dissolve os Homens A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança... Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. E o amor não abre caminho na noite. A noite é mortal, completa, sem reticências, a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer, a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas. A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio... Os suicidas tinham razão. Aurora, entretanto eu te diviso, ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender e dos bens que repartirás com todos os homens. Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna. O triste mundo fascista se de...
Pombo-Correio Os garotos da Rua Noel Rosa onde um talo de samba viça no calçamento, viram o pombo-correio cansado confuso aproximar-se em vôo baixo. Tão baixo voava: mais raso que os sonhos municipais de cada um. Seria o Exército em manobras ou simplesmente trazia recados de ai! amor à namorada do tenente em Aldeia Campista? E voando e baixando entrançou-se entre folhas e galhos de fícus: era um papagaio de papel, estrelinha presa, suspiro metade ainda no peito, outra metade no ar. Antes que o ferissem, pois o carinho dos pequenos ainda é mais desastrado que o dos homens e o dos homens costuma ser mortal uma senhora o salva tomando-o no berço das mãos e brandamente alisa-lhe a medrosa plumagem azulcinza cinza de fundos neutros de Mondrian azul de abril pensando maio. 3235-58-Brasil dizia o anel na perninha direita. Mensagem não havia nenhuma ou a perdera o mensageiro como se perdem os maiores segredos de Estado que graças a isto se to...
Aos que vierem depois de nós Bertolt Brecht (Tradução de Manuel Bandeira) Realmente, vivemos muito sombrios! A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas denota insensibilidade. Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia que está para chegar. Que tempos são estes, em que é quase um delito falar de coisas inocentes. Pois implica silenciar tantos horrores! Esse que cruza tranquilamente a rua não poderá jamais ser encontrado pelos amigos que precisam de ajuda? É certo: ganho o meu pão ainda, Mas acreditai-me: é pura casualidade. Nada do que faço justifica que eu possa comer até fartar-me. Por enquanto as coisas me correm bem [(se a sorte me abandonar estou perdido). E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!" Mas como posso comer e beber, se ao faminto arrebato o que como, se o copo de água falta ao sedento? E todavia continuo comendo e bebendo. Também gostaria de ser um sábio. Os livros antigos nos falam da sabedoria: é ...
La bastille Mon ami, qui croit que tout doit changer Crois-tu le droit d'aller tuer les bourgeois Si tu crois encore qu'il nous faut descendre Dans le creux des rues pour monter au pouvoir Si tu crois encore au rêve du grand soir Et que nos ennemis, il faut aller les pendre Dis-le toi désormais Même s'il est sincère Aucun rêve jamais Ne mérite une guerre On a détruit la Bastille Et ça n'a rien arrangé On a détruit la Bastille Quand il fallait nous aimer Mon ami, qui croit, que rien ne doit changer Te crois-tu le droit de vivre et de penser en bourgeois Si tu crois encore qu'il nous faut défendre Un bonheur acquis au prix d'autres bonheurs Si tu crois encore que c'est parce qu'ils ont tort Que les gens te saluent plutôt que de te pendre Dis-le toi désormais Même s'il est sincère Aucun rêve jamais Ne mérite une guerre On a détruit la Bastille Et ça n'a rien arrangé On a détruit la Bastille Quand il fallait nous ...
Acordar tarde Tocas as flores murchas que alguém te ofereceu quando o rio parou de correr e a noite foi tão luminosa quanto a mota que falhou a curva - e o serviço postal não funcionou no dia seguinte procuras ávido aquilo que o mar não devorou e passas a língua na cola dos selos lambidos por assassinos - e a tua mão segurando a faca cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado dos amantes ocasionais - nada a fazer irás sozinho vida dentro os braços estendidos como se entrasses na água o corpo num arco de pedra tenso simulando a casa onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia Al Berto
Não: não digas nada! Supor o que dirá A tua boca velada É ouvi-lo já É ouvi-lo melhor Do que o dirias. O que és não vem à flor Das frases e dos dias. És melhor do que tu. Não digas nada: sê! Graça do corpo nu Que invisível se vê. Fernando Pessoa 5/6-2-1931
A bunda que engraçada A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora ? murmura a bunda ? esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, rebunda. Carlos Drummond de Andrade
Língua portuguesa Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela... Amo-te assim, desconhecida e obscura. Tuba de alto clangor, lira singela, Que tens o trom e o silvo da procela, E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste e o teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te, ó rude e doloroso idioma, em que da voz materna ouvi: "meu filho!", E em que Camões chorou, no exílio amargo, O gênio sem ventura e o amor sem brilho! Olavo Bilac
Pequenas considerações sobre o futuro das coisas Uma ponta de lápis que se cravou na minha mão os pássaros que voam para sul no Inverno. O nosso Inverno que é Verão do lado de lá do mundo os oceanos que compõem a maior parte da Terra. a vida das árvores a mulher o feto ainda incógnito que nasce no útero as estrelas que vemos no céu depois de mortas. O que é Eterno o pó que os nossos passos levantam as memórias a História os Homens uma pegada na lua o fundo do mar um soneto de Antero o meu irmão as ondas inesgotáveis que me fazem respirar a voz de Jacques Brel cantando Les Marquises. Os cabelos de uma mulher contornando-lhe o pescoço. A musica que ecoa do contacto das coisas. O fumo de um cigarro o contacto da tua pele na minha as mãos um golo num copo e um mundo líquido a incerteza dos dias e a minha morte no futuro os livros que li os que não li as palavras que não pude escrever aqui as mares por influência da lua e a vida por influência do sol e ...
composto por Bernardo Soares , ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa (Fragmentos) 10. "Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados."
poema de haver erro em dia novo abriu os dedos ao devir da palavra como num rolo enxugou as tintas frescas da parede lamentando ter perdido a cedilha do tempo. eram 10 horas. errava ainda a par da primavera, o outono chiando, num descanso taciturno, atrapalhou-se com os minutos, enfiados nas algibeirase foi-se o dia começava amanhã novo não chegara ainda o tempo das vírgulas. Morreu num poema de haver erro em dia novo enquanto tentava atravessar o ( livro ) de ponto. Mariana Matos
A mulher que passa Meu Deus, eu quero a mulher que passa. Seu dorso frio é um campo de lírios Tem sete cores nos seus cabelos Sete esperanças na boca fresca! Oh! Como és linda, mulher que passas Que me sacias e suplicias Dentro das noites, dentro dos dias! Teus sentimentos são poesia Teus sofrimentos, melancolia. Teus pêlos são relva boa Fresca e macia. Teus belos braços são cisnes mansos Longe das vozes da ventania. Meu Deus, eu quero a mulher que passa! Como te adoro, mulher que passas Que vens e passas, que me sacias Dentro das noites, dentro dos dias! Por que me faltas, se te procuro? Por que me odeias quando te juro Que te perdia se me encontravas E me encontravas se te perdias? Por que não voltas, mulher que passas? Por que não enches a minha vida? Por que não voltas, mulher querida Sempre perdida, nunca encontrada? Por que não voltas à minha vida Para o que sofro não ser desgraça? Meu Deus, eu quero a mulher q...
Não Há Estrelas No Céu Carlos Tê / Rui Veloso Não há estrelas no céu a dourar o meu caminho, Por mais amigos que tenha sinto-me sempre sozinho. De que vale ter a chave de casa para entrar, Ter uma nota no bolso pr'a cigarros e bilhar? A primavera da vida é bonita de viver, Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover. Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar, Parece que o mundo inteiro se uniu pr'a me tramar! Passo horas no café, sem saber para onde ir, Tudo à volta é tão feio, só me apetece fugir. Vejo-me à noite ao espelho, o corpo sempre a mudar, De manhã ouço o conselho que o velho tem pr'a me dar. Vou por aí às escondidas, a espreitar às janelas, Perdido nas avenidas e achado nas vielas. Mãe, o meu primeiro amor foi um trapézio sem rede, Sai da frente por favor, estou entre a espada e a parede. Não vês como isto é duro, ser jovem não é um posto, Ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto. Porque é que tudo é inc...
Saudade em Barcos Pretos Relembra-me o toque dos teus passos no soalho da nossa casa. Talvez esta saudade doesse menos; Talvez a porta se voltasse a abrir e Fosses (mesmo que apenas) Um viajante, um hóspede, um amigo, a quem, Pudesse contar os meus segredos. Relembra-me o som da tua voz ao telefone A desejar-me os bons anos. Os parabéns. O Feliz Natal. Talvez a tua ausência desaparecesse. Talvez a minha solidão diminuísse. Relembra-me a cor do mar pelos teus olhos, Os barcos, as cidades, As pessoas, Relembra-me os passeios, as lagoas, os portos de chegada O teu abraço. Relembra-me a vida como era, Talvez eu pudesse escrevê-la e mudá-la: - Partidas e viagens nunca ausentes, A solidão trocada por encontro. E tudo era feliz. Claro e constante. Não mais partidas vãs que só desgraçam A dor, que vem pelo dorso da minh´alma. Não mais Morrer-me a mim em cada instante, Levando-me a saudade em barcos pretos, A todos os portos que conheceste. Mariana Ma...
O Menino da sua Mãe No plaino abandonado Que a morna brisa aquece, De balas traspassado ? Duas, de lado a lado ?, Jaz morto, e arrefece. Raia-lhe a farda o sangue De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. Tão jovem! Que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino da sua mãe». Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lhe a mãe. Está inteira É boa a cigarreira, Ele é que já não serve. De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. Lá longe, em casa, há a prece: "Que volte cedo, e bem!" (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe. Fernando Pessoa
«Trova do Vento que Passa» Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país. Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio -- é tudo o que tem quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folh...