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A bunda que engraçada A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora ? murmura a bunda ? esses garotos ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, rebunda. Carlos Drummond de Andrade
Língua portuguesa Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela... Amo-te assim, desconhecida e obscura. Tuba de alto clangor, lira singela, Que tens o trom e o silvo da procela, E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste e o teu aroma De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te, ó rude e doloroso idioma, em que da voz materna ouvi: "meu filho!", E em que Camões chorou, no exílio amargo, O gênio sem ventura e o amor sem brilho! Olavo Bilac
Pequenas considerações sobre o futuro das coisas Uma ponta de lápis que se cravou na minha mão os pássaros que voam para sul no Inverno. O nosso Inverno que é Verão do lado de lá do mundo os oceanos que compõem a maior parte da Terra. a vida das árvores a mulher o feto ainda incógnito que nasce no útero as estrelas que vemos no céu depois de mortas. O que é Eterno o pó que os nossos passos levantam as memórias a História os Homens uma pegada na lua o fundo do mar um soneto de Antero o meu irmão as ondas inesgotáveis que me fazem respirar a voz de Jacques Brel cantando Les Marquises. Os cabelos de uma mulher contornando-lhe o pescoço. A musica que ecoa do contacto das coisas. O fumo de um cigarro o contacto da tua pele na minha as mãos um golo num copo e um mundo líquido a incerteza dos dias e a minha morte no futuro os livros que li os que não li as palavras que não pude escrever aqui as mares por influência da lua e a vida por influência do sol e ...
composto por Bernardo Soares , ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa (Fragmentos) 10. "Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados."
poema de haver erro em dia novo abriu os dedos ao devir da palavra como num rolo enxugou as tintas frescas da parede lamentando ter perdido a cedilha do tempo. eram 10 horas. errava ainda a par da primavera, o outono chiando, num descanso taciturno, atrapalhou-se com os minutos, enfiados nas algibeirase foi-se o dia começava amanhã novo não chegara ainda o tempo das vírgulas. Morreu num poema de haver erro em dia novo enquanto tentava atravessar o ( livro ) de ponto. Mariana Matos
A mulher que passa Meu Deus, eu quero a mulher que passa. Seu dorso frio é um campo de lírios Tem sete cores nos seus cabelos Sete esperanças na boca fresca! Oh! Como és linda, mulher que passas Que me sacias e suplicias Dentro das noites, dentro dos dias! Teus sentimentos são poesia Teus sofrimentos, melancolia. Teus pêlos são relva boa Fresca e macia. Teus belos braços são cisnes mansos Longe das vozes da ventania. Meu Deus, eu quero a mulher que passa! Como te adoro, mulher que passas Que vens e passas, que me sacias Dentro das noites, dentro dos dias! Por que me faltas, se te procuro? Por que me odeias quando te juro Que te perdia se me encontravas E me encontravas se te perdias? Por que não voltas, mulher que passas? Por que não enches a minha vida? Por que não voltas, mulher querida Sempre perdida, nunca encontrada? Por que não voltas à minha vida Para o que sofro não ser desgraça? Meu Deus, eu quero a mulher q...
Não Há Estrelas No Céu Carlos Tê / Rui Veloso Não há estrelas no céu a dourar o meu caminho, Por mais amigos que tenha sinto-me sempre sozinho. De que vale ter a chave de casa para entrar, Ter uma nota no bolso pr'a cigarros e bilhar? A primavera da vida é bonita de viver, Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover. Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar, Parece que o mundo inteiro se uniu pr'a me tramar! Passo horas no café, sem saber para onde ir, Tudo à volta é tão feio, só me apetece fugir. Vejo-me à noite ao espelho, o corpo sempre a mudar, De manhã ouço o conselho que o velho tem pr'a me dar. Vou por aí às escondidas, a espreitar às janelas, Perdido nas avenidas e achado nas vielas. Mãe, o meu primeiro amor foi um trapézio sem rede, Sai da frente por favor, estou entre a espada e a parede. Não vês como isto é duro, ser jovem não é um posto, Ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto. Porque é que tudo é inc...
Saudade em Barcos Pretos Relembra-me o toque dos teus passos no soalho da nossa casa. Talvez esta saudade doesse menos; Talvez a porta se voltasse a abrir e Fosses (mesmo que apenas) Um viajante, um hóspede, um amigo, a quem, Pudesse contar os meus segredos. Relembra-me o som da tua voz ao telefone A desejar-me os bons anos. Os parabéns. O Feliz Natal. Talvez a tua ausência desaparecesse. Talvez a minha solidão diminuísse. Relembra-me a cor do mar pelos teus olhos, Os barcos, as cidades, As pessoas, Relembra-me os passeios, as lagoas, os portos de chegada O teu abraço. Relembra-me a vida como era, Talvez eu pudesse escrevê-la e mudá-la: - Partidas e viagens nunca ausentes, A solidão trocada por encontro. E tudo era feliz. Claro e constante. Não mais partidas vãs que só desgraçam A dor, que vem pelo dorso da minh´alma. Não mais Morrer-me a mim em cada instante, Levando-me a saudade em barcos pretos, A todos os portos que conheceste. Mariana Ma...
O Menino da sua Mãe No plaino abandonado Que a morna brisa aquece, De balas traspassado ? Duas, de lado a lado ?, Jaz morto, e arrefece. Raia-lhe a farda o sangue De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. Tão jovem! Que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino da sua mãe». Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lhe a mãe. Está inteira É boa a cigarreira, Ele é que já não serve. De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. Lá longe, em casa, há a prece: "Que volte cedo, e bem!" (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe. Fernando Pessoa
«Trova do Vento que Passa» Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país. Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio -- é tudo o que tem quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folh...
Para o João Henrique Magalhães AMIGOS!Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências? A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,...
A Sílaba Toda a manhã procurei uma sílaba. É pouca coisa,é certo:uma vogal, uma consoante,quase nada. Mas faz-me falta.Só eu sei a falta que me faz. Por isso a procurava com obstinação. Só ela me podia defender do frio de janeiro,da estiagem do verão.Uma sílaba. Uma única sílaba. A salvação. de Ofício de Paciência Eugénio de Andrade
A Funda Arranquei à pele do peito, com os dedos ensangüentados, um retângulo perfeito de cem centímetros quadrados. Estendi-o ao sol a curtir a haurir uns raios que projetam certo incógnito elixir que os detectares não detectam. Depois de bem seco e rijo prendi-lhe, nos quatros cantos, quatro nervos desses tantos com que me franjo e me aflijo. Eis-me de funda na mão no mais ereto dos montes, devassando os horizontes com os pés bem presos no chão, as pernas em ângulo agudo para assentar com firmeza nessa dúvida de tudo tão certa como a certeza. Só, entre os fundibulários, no centro dos meus domínios, como o pastor dos Hermínios na defesa dos contrários, ponho na funda um poema de agrestes arestas vivas, e em rotações sucessivas de celeridade extrema, com todo o vigor do braço, como o vento em torvelinho, lanço o poema no espaço no seu exato caminho. António Gedeão
Take This Waltz Now in Vienna there's ten pretty women There's a shoulder where Death comes to cry There's a lobby with nine hundred windows There's a tree where the doves go to die There's a piece that was torn from the morning And it hangs in the Gallery of Frost Ay, Ay, Ay, Ay Take this waltz, take this waltz Take this waltz with the clamp on its jaws Oh I want you, I want you, I want you On a chair with a dead magazine In the cave at the tip of the lily In some hallways where love's never been On a bed where the moon has been sweating In a cry filled with footsteps and sand Ay, Ay, Ay, Ay Take this waltz, take this waltz Take its broken waist in your hand This waltz, this waltz, this waltz, this waltz With its very own breath of brandy and Death Dragging its tail in the sea There's a concert hall in Vienna Where your mouth had a thousand reviews There's a bar where the boys have stopped talking ...
Um poema para o dia de ontem Rosa de Hiroshima Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexactas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh! não se esqueçam Da rosa, da rosa Da rosa de Hiroshima Rosa hereditária A rosa radioactiva Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atómica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada. Vínicos de Morais
Ecce Homo Desbaratamos deuses, procurando Um que nos satisfaça ou justifique. Desbaratamos esperança, imaginando Uma causa maior que nos explique. Pensando nos secamos e perdemos Esta força selvagem e secreta, Esta semente agreste que trazemos E gera heróis e homens e poetas. Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo Malhando-nos a carne, até que em brasa Nossos sexos furiosos se confundam, Nossos corpos pensantes se entrelacem E sangue, raiva, desespero ou asa, Os filhos que tivermos forem nossos. José Carlos Ary dos Santos
Ecloga Sonhei contigo embora nenhum sonho possa ter habitantes, tu a quem chamo amor, cada ano pudesse trazer um pouco mais de convicção a esta palavra. É verdade o sonho poderá ter feito com que, nesta rarefacção de ambos, a tua presença se impusesse - como se cada gesto do poema te restituísse um corpo que sinto ao dizer o teu nome, confundindo os teus lábios com o rebordo desta chávena de café já frio. Então, bebo-o de um trago o mesmo se pode fazer ao amor, quando entre mim e ti se instalou todo este espaço - terra, água, nuvens, rios e o lago obscuro do tempo que o inverno rouba à transparência da fontes. É isto, porém, que faz com que a solidão não seja mais do que um lugar comum saber que existes, aí, e estar contigo mesmo que só o silêncio me responda quando, uma vez mais te chamo. Nuno Júdice
A Boneca   Deixando a bola e a peteca  Com que inda há pouco brincavam, Por causa de uma boneca, Duas meninas brigavam.   Dizia a primeira: "É minha!" ? "É minha!" a outra gritava; E nenhuma se continha, Nem a boneca largava.   Quem mais sofria (coitada!) Era a boneca. Já tinha Toda a roupa estraçalhada,  E amarrotada a carinha.   Tanto puxaram por ela, Que a pobre rasgou-se ao meio, Perdendo a estopa amarela Que lhe formava o recheio.   E, ao fim de tanta fadiga, oltando à bola e à peteca, Ambas, por causa da briga, Ficaram sem a boneca...   Olavo Bilac
O sol já se escondeu O sol já se escondeu... Precisamente quando, feliz, eu desatei a cantar. (Só por feliz eu cantei). Agora quero acabar, que já me dói a garganta, mas vou ainda cantando, tremendo dar por mim de novo triste assim que esteja calado. (...Como se a minha Alegria nascesse de eu ter cantado). Sebastião da Gama
SONETO DO CATIVO Se é sem dúvida Amor esta explosão de tantas sensações contraditórias; a sórdida mistura das memórias tão longe da verdade e da invenção; o espelho deformante; a profusão de frases insensatas, incensórias; a cúmplice partilha nas histórias do que outros dirão ou não dirão; se é sem dúvida Amor a cobardia de buscar nos lençóis a mais sombria razão de encantamento e de desprezo; não há dúvida, Amor, que te não fujo e que, por ti, tão cego, surdo e sujo, tenho vivido eternamente preso! David Mourão Ferreira, in Os Quatro Cantos do Tempo