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Não Há Estrelas No Céu Carlos Tê / Rui Veloso Não há estrelas no céu a dourar o meu caminho, Por mais amigos que tenha sinto-me sempre sozinho. De que vale ter a chave de casa para entrar, Ter uma nota no bolso pr'a cigarros e bilhar? A primavera da vida é bonita de viver, Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover. Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar, Parece que o mundo inteiro se uniu pr'a me tramar! Passo horas no café, sem saber para onde ir, Tudo à volta é tão feio, só me apetece fugir. Vejo-me à noite ao espelho, o corpo sempre a mudar, De manhã ouço o conselho que o velho tem pr'a me dar. Vou por aí às escondidas, a espreitar às janelas, Perdido nas avenidas e achado nas vielas. Mãe, o meu primeiro amor foi um trapézio sem rede, Sai da frente por favor, estou entre a espada e a parede. Não vês como isto é duro, ser jovem não é um posto, Ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto. Porque é que tudo é inc...
Saudade em Barcos Pretos Relembra-me o toque dos teus passos no soalho da nossa casa. Talvez esta saudade doesse menos; Talvez a porta se voltasse a abrir e Fosses (mesmo que apenas) Um viajante, um hóspede, um amigo, a quem, Pudesse contar os meus segredos. Relembra-me o som da tua voz ao telefone A desejar-me os bons anos. Os parabéns. O Feliz Natal. Talvez a tua ausência desaparecesse. Talvez a minha solidão diminuísse. Relembra-me a cor do mar pelos teus olhos, Os barcos, as cidades, As pessoas, Relembra-me os passeios, as lagoas, os portos de chegada O teu abraço. Relembra-me a vida como era, Talvez eu pudesse escrevê-la e mudá-la: - Partidas e viagens nunca ausentes, A solidão trocada por encontro. E tudo era feliz. Claro e constante. Não mais partidas vãs que só desgraçam A dor, que vem pelo dorso da minh´alma. Não mais Morrer-me a mim em cada instante, Levando-me a saudade em barcos pretos, A todos os portos que conheceste. Mariana Ma...
O Menino da sua Mãe No plaino abandonado Que a morna brisa aquece, De balas traspassado ? Duas, de lado a lado ?, Jaz morto, e arrefece. Raia-lhe a farda o sangue De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos. Tão jovem! Que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino da sua mãe». Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lhe a mãe. Está inteira É boa a cigarreira, Ele é que já não serve. De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo. Lá longe, em casa, há a prece: "Que volte cedo, e bem!" (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe. Fernando Pessoa
«Trova do Vento que Passa» Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país. Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio -- é tudo o que tem quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folh...
Para o João Henrique Magalhães AMIGOS!Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências? A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,...
A Sílaba Toda a manhã procurei uma sílaba. É pouca coisa,é certo:uma vogal, uma consoante,quase nada. Mas faz-me falta.Só eu sei a falta que me faz. Por isso a procurava com obstinação. Só ela me podia defender do frio de janeiro,da estiagem do verão.Uma sílaba. Uma única sílaba. A salvação. de Ofício de Paciência Eugénio de Andrade
A Funda Arranquei à pele do peito, com os dedos ensangüentados, um retângulo perfeito de cem centímetros quadrados. Estendi-o ao sol a curtir a haurir uns raios que projetam certo incógnito elixir que os detectares não detectam. Depois de bem seco e rijo prendi-lhe, nos quatros cantos, quatro nervos desses tantos com que me franjo e me aflijo. Eis-me de funda na mão no mais ereto dos montes, devassando os horizontes com os pés bem presos no chão, as pernas em ângulo agudo para assentar com firmeza nessa dúvida de tudo tão certa como a certeza. Só, entre os fundibulários, no centro dos meus domínios, como o pastor dos Hermínios na defesa dos contrários, ponho na funda um poema de agrestes arestas vivas, e em rotações sucessivas de celeridade extrema, com todo o vigor do braço, como o vento em torvelinho, lanço o poema no espaço no seu exato caminho. António Gedeão
Take This Waltz Now in Vienna there's ten pretty women There's a shoulder where Death comes to cry There's a lobby with nine hundred windows There's a tree where the doves go to die There's a piece that was torn from the morning And it hangs in the Gallery of Frost Ay, Ay, Ay, Ay Take this waltz, take this waltz Take this waltz with the clamp on its jaws Oh I want you, I want you, I want you On a chair with a dead magazine In the cave at the tip of the lily In some hallways where love's never been On a bed where the moon has been sweating In a cry filled with footsteps and sand Ay, Ay, Ay, Ay Take this waltz, take this waltz Take its broken waist in your hand This waltz, this waltz, this waltz, this waltz With its very own breath of brandy and Death Dragging its tail in the sea There's a concert hall in Vienna Where your mouth had a thousand reviews There's a bar where the boys have stopped talking ...
Um poema para o dia de ontem Rosa de Hiroshima Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexactas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh! não se esqueçam Da rosa, da rosa Da rosa de Hiroshima Rosa hereditária A rosa radioactiva Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atómica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada. Vínicos de Morais
Ecce Homo Desbaratamos deuses, procurando Um que nos satisfaça ou justifique. Desbaratamos esperança, imaginando Uma causa maior que nos explique. Pensando nos secamos e perdemos Esta força selvagem e secreta, Esta semente agreste que trazemos E gera heróis e homens e poetas. Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo Malhando-nos a carne, até que em brasa Nossos sexos furiosos se confundam, Nossos corpos pensantes se entrelacem E sangue, raiva, desespero ou asa, Os filhos que tivermos forem nossos. José Carlos Ary dos Santos
Ecloga Sonhei contigo embora nenhum sonho possa ter habitantes, tu a quem chamo amor, cada ano pudesse trazer um pouco mais de convicção a esta palavra. É verdade o sonho poderá ter feito com que, nesta rarefacção de ambos, a tua presença se impusesse - como se cada gesto do poema te restituísse um corpo que sinto ao dizer o teu nome, confundindo os teus lábios com o rebordo desta chávena de café já frio. Então, bebo-o de um trago o mesmo se pode fazer ao amor, quando entre mim e ti se instalou todo este espaço - terra, água, nuvens, rios e o lago obscuro do tempo que o inverno rouba à transparência da fontes. É isto, porém, que faz com que a solidão não seja mais do que um lugar comum saber que existes, aí, e estar contigo mesmo que só o silêncio me responda quando, uma vez mais te chamo. Nuno Júdice
A Boneca   Deixando a bola e a peteca  Com que inda há pouco brincavam, Por causa de uma boneca, Duas meninas brigavam.   Dizia a primeira: "É minha!" ? "É minha!" a outra gritava; E nenhuma se continha, Nem a boneca largava.   Quem mais sofria (coitada!) Era a boneca. Já tinha Toda a roupa estraçalhada,  E amarrotada a carinha.   Tanto puxaram por ela, Que a pobre rasgou-se ao meio, Perdendo a estopa amarela Que lhe formava o recheio.   E, ao fim de tanta fadiga, oltando à bola e à peteca, Ambas, por causa da briga, Ficaram sem a boneca...   Olavo Bilac
O sol já se escondeu O sol já se escondeu... Precisamente quando, feliz, eu desatei a cantar. (Só por feliz eu cantei). Agora quero acabar, que já me dói a garganta, mas vou ainda cantando, tremendo dar por mim de novo triste assim que esteja calado. (...Como se a minha Alegria nascesse de eu ter cantado). Sebastião da Gama
SONETO DO CATIVO Se é sem dúvida Amor esta explosão de tantas sensações contraditórias; a sórdida mistura das memórias tão longe da verdade e da invenção; o espelho deformante; a profusão de frases insensatas, incensórias; a cúmplice partilha nas histórias do que outros dirão ou não dirão; se é sem dúvida Amor a cobardia de buscar nos lençóis a mais sombria razão de encantamento e de desprezo; não há dúvida, Amor, que te não fujo e que, por ti, tão cego, surdo e sujo, tenho vivido eternamente preso! David Mourão Ferreira, in Os Quatro Cantos do Tempo
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O que é que eu posso dizer sobre o desaparecimento desta grande Senhora? Nada. Para para além do que ela própria foi dizendo ao longo da sua obra. "A hora da partida soa quando As árvores parecem inspiradas Como se tudo nelas germinasse"
De Volta ao Carlos Tê e ao Rui Veloso Trovas Vicentinas Vós que vos ides por ganância Debaixo da capa do cruzado Buscando no incerto e na distância A mina delirante do el dourado Vós que deixais só na rectaguarda Um farto giniceu desamparado Não sentis testa que vos arda Durante o sono repousate do soldado Ouvi este lado trovador Por feitos de além - mar pouco tentado Não se deixa uma esposa sem amor Com o trevo da mocidade eriçado E vê-las no poleiro das janelas Gastando seus furores em vãs intrigas É vê-las nas ribeiras com as barrelas Contando oq ue só deus sabe às amigas Quanta malícia mal ardida Tangem seus olhares pelas esquinas Soubesseis os sorrisos de fugida Que delas merecem minhas rimas E vieis que melhor que a riqueza É ter alguém à noite na cama Que o diga a presunçosa e vã nobreza Que goza a especiaria ao pé da dama Por isso se as testas vos ardem No lume verrinoso do adultério Às línguas viperinas que vierem Dizei que ardem ...
À vida É vão o amor, o ódio, ou o desdém; Inútil o desejo e o sentimento... Lançar um grande amor aos pés de alguém O mesmo é que lançar flores ao vento! Todos somos no mundo "Pedro Sem", Uma alegria é feita dum tormento, Um riso é sempre o eco dum lamento, Sabe-se lá um beijo de onde vem! A mais nobre ilusão morre... desfa-se... Uma saudade morta em nós renasce Que no mesmo momento é já perdida... Amar-te a vida inteira eu não podia, A gente esquece sempre o bom de um dia. Que queres, meu Amor, se é isto a vida! Florbela Espanca
Pedra Filosofal Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso como este ribeiro manso em serenos sobressaltos como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam como estas árvores que gritam em bebedeiras de azul eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento bichinho alacre e sedento de focinho pontiagudo que fuça através de tudo no perpétuo movimento Eles não sabem que o sonho é tela é cor é pincel base, fuste ou capitel arco em ogiva, vitral Pináculo de catedral contraponto, sinfonia máscara grega, magia que é retorta de alquimista mapa do mundo distante Rosa dos Ventos Infante caravela quinhentista que é cabo da Boa-Esperança Ouro, canela, marfim florete de espadachim bastidor, passo de dança Columbina e Arlequim passarola voadora pára-raios, locomotiva barco de proa festiva alto-forno, geradora ...
Fio de vida Já fiz mais do que podia Nem sei como foi que fiz. Muita vez nem quis a vida a vida foi quem me quis. Para me ter como servo? Para acender um tição na frágua da indiferença? Para abrir um coração no fosso da inteligência? Não sei, nunca vou saber. Sei que de tanto me ter, acabei amando a vida. Vida que anda por um fio, diz quem sabe. Pode andar, contanto (vida é milagre) que bem cumprido o meu fio. Thiago de Mello Para desanuviar do TÊ e do RUI e a pedido de várias familias.
Trovas Vicentinas Carlos Tê / Rui Veloso Vós que vos ides por ganância Debaixo da capa do cruzado Buscando no incerto e na distância A mina delirante do el dourado Vós que deixais só na rectaguarda Um farto giniceu desamparado Não sentis testa que vos arda Durante o sono repousate do soldado Ouvi este lado trovador Por feitos de além - mar pouco tentado Não se deixa uma esposa sem amor Com o trevo da mocidade eriçado E vê-las no poleiro das janelas Gastando seus furores em vãs intrigas É vê-las nas ribeiras com as barrelas Contando oq ue só deus sabe às amigas Quanta malícia mal ardida Tangem seus olhares pelas esquinas Soubesseis os sorrisos de fugida Que delas merecem minhas rimas E vieis que melhor que a riqueza É ter alguém à noite na cama Que o diga a presunçosa e vã nobreza Que goza a especiaria ao pé da dama Por isso se as testas vos ardem No lume verrinoso do adultério Às línguas viperinas que vierem Dizei que ardem pela grandeza do i...