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A Funda Arranquei à pele do peito, com os dedos ensangüentados, um retângulo perfeito de cem centímetros quadrados. Estendi-o ao sol a curtir a haurir uns raios que projetam certo incógnito elixir que os detectares não detectam. Depois de bem seco e rijo prendi-lhe, nos quatros cantos, quatro nervos desses tantos com que me franjo e me aflijo. Eis-me de funda na mão no mais ereto dos montes, devassando os horizontes com os pés bem presos no chão, as pernas em ângulo agudo para assentar com firmeza nessa dúvida de tudo tão certa como a certeza. Só, entre os fundibulários, no centro dos meus domínios, como o pastor dos Hermínios na defesa dos contrários, ponho na funda um poema de agrestes arestas vivas, e em rotações sucessivas de celeridade extrema, com todo o vigor do braço, como o vento em torvelinho, lanço o poema no espaço no seu exato caminho. António Gedeão
Take This Waltz Now in Vienna there's ten pretty women There's a shoulder where Death comes to cry There's a lobby with nine hundred windows There's a tree where the doves go to die There's a piece that was torn from the morning And it hangs in the Gallery of Frost Ay, Ay, Ay, Ay Take this waltz, take this waltz Take this waltz with the clamp on its jaws Oh I want you, I want you, I want you On a chair with a dead magazine In the cave at the tip of the lily In some hallways where love's never been On a bed where the moon has been sweating In a cry filled with footsteps and sand Ay, Ay, Ay, Ay Take this waltz, take this waltz Take its broken waist in your hand This waltz, this waltz, this waltz, this waltz With its very own breath of brandy and Death Dragging its tail in the sea There's a concert hall in Vienna Where your mouth had a thousand reviews There's a bar where the boys have stopped talking ...
Um poema para o dia de ontem Rosa de Hiroshima Pensem nas crianças Mudas telepáticas Pensem nas meninas Cegas inexactas Pensem nas mulheres Rotas alteradas Pensem nas feridas Como rosas cálidas Mas oh! não se esqueçam Da rosa, da rosa Da rosa de Hiroshima Rosa hereditária A rosa radioactiva Estúpida e inválida A rosa com cirrose A anti-rosa atómica Sem cor sem perfume Sem rosa sem nada. Vínicos de Morais
Ecce Homo Desbaratamos deuses, procurando Um que nos satisfaça ou justifique. Desbaratamos esperança, imaginando Uma causa maior que nos explique. Pensando nos secamos e perdemos Esta força selvagem e secreta, Esta semente agreste que trazemos E gera heróis e homens e poetas. Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo Malhando-nos a carne, até que em brasa Nossos sexos furiosos se confundam, Nossos corpos pensantes se entrelacem E sangue, raiva, desespero ou asa, Os filhos que tivermos forem nossos. José Carlos Ary dos Santos
Ecloga Sonhei contigo embora nenhum sonho possa ter habitantes, tu a quem chamo amor, cada ano pudesse trazer um pouco mais de convicção a esta palavra. É verdade o sonho poderá ter feito com que, nesta rarefacção de ambos, a tua presença se impusesse - como se cada gesto do poema te restituísse um corpo que sinto ao dizer o teu nome, confundindo os teus lábios com o rebordo desta chávena de café já frio. Então, bebo-o de um trago o mesmo se pode fazer ao amor, quando entre mim e ti se instalou todo este espaço - terra, água, nuvens, rios e o lago obscuro do tempo que o inverno rouba à transparência da fontes. É isto, porém, que faz com que a solidão não seja mais do que um lugar comum saber que existes, aí, e estar contigo mesmo que só o silêncio me responda quando, uma vez mais te chamo. Nuno Júdice
A Boneca   Deixando a bola e a peteca  Com que inda há pouco brincavam, Por causa de uma boneca, Duas meninas brigavam.   Dizia a primeira: "É minha!" ? "É minha!" a outra gritava; E nenhuma se continha, Nem a boneca largava.   Quem mais sofria (coitada!) Era a boneca. Já tinha Toda a roupa estraçalhada,  E amarrotada a carinha.   Tanto puxaram por ela, Que a pobre rasgou-se ao meio, Perdendo a estopa amarela Que lhe formava o recheio.   E, ao fim de tanta fadiga, oltando à bola e à peteca, Ambas, por causa da briga, Ficaram sem a boneca...   Olavo Bilac
O sol já se escondeu O sol já se escondeu... Precisamente quando, feliz, eu desatei a cantar. (Só por feliz eu cantei). Agora quero acabar, que já me dói a garganta, mas vou ainda cantando, tremendo dar por mim de novo triste assim que esteja calado. (...Como se a minha Alegria nascesse de eu ter cantado). Sebastião da Gama
SONETO DO CATIVO Se é sem dúvida Amor esta explosão de tantas sensações contraditórias; a sórdida mistura das memórias tão longe da verdade e da invenção; o espelho deformante; a profusão de frases insensatas, incensórias; a cúmplice partilha nas histórias do que outros dirão ou não dirão; se é sem dúvida Amor a cobardia de buscar nos lençóis a mais sombria razão de encantamento e de desprezo; não há dúvida, Amor, que te não fujo e que, por ti, tão cego, surdo e sujo, tenho vivido eternamente preso! David Mourão Ferreira, in Os Quatro Cantos do Tempo
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O que é que eu posso dizer sobre o desaparecimento desta grande Senhora? Nada. Para para além do que ela própria foi dizendo ao longo da sua obra. "A hora da partida soa quando As árvores parecem inspiradas Como se tudo nelas germinasse"
De Volta ao Carlos Tê e ao Rui Veloso Trovas Vicentinas Vós que vos ides por ganância Debaixo da capa do cruzado Buscando no incerto e na distância A mina delirante do el dourado Vós que deixais só na rectaguarda Um farto giniceu desamparado Não sentis testa que vos arda Durante o sono repousate do soldado Ouvi este lado trovador Por feitos de além - mar pouco tentado Não se deixa uma esposa sem amor Com o trevo da mocidade eriçado E vê-las no poleiro das janelas Gastando seus furores em vãs intrigas É vê-las nas ribeiras com as barrelas Contando oq ue só deus sabe às amigas Quanta malícia mal ardida Tangem seus olhares pelas esquinas Soubesseis os sorrisos de fugida Que delas merecem minhas rimas E vieis que melhor que a riqueza É ter alguém à noite na cama Que o diga a presunçosa e vã nobreza Que goza a especiaria ao pé da dama Por isso se as testas vos ardem No lume verrinoso do adultério Às línguas viperinas que vierem Dizei que ardem ...
À vida É vão o amor, o ódio, ou o desdém; Inútil o desejo e o sentimento... Lançar um grande amor aos pés de alguém O mesmo é que lançar flores ao vento! Todos somos no mundo "Pedro Sem", Uma alegria é feita dum tormento, Um riso é sempre o eco dum lamento, Sabe-se lá um beijo de onde vem! A mais nobre ilusão morre... desfa-se... Uma saudade morta em nós renasce Que no mesmo momento é já perdida... Amar-te a vida inteira eu não podia, A gente esquece sempre o bom de um dia. Que queres, meu Amor, se é isto a vida! Florbela Espanca
Pedra Filosofal Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso como este ribeiro manso em serenos sobressaltos como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam como estas árvores que gritam em bebedeiras de azul eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento bichinho alacre e sedento de focinho pontiagudo que fuça através de tudo no perpétuo movimento Eles não sabem que o sonho é tela é cor é pincel base, fuste ou capitel arco em ogiva, vitral Pináculo de catedral contraponto, sinfonia máscara grega, magia que é retorta de alquimista mapa do mundo distante Rosa dos Ventos Infante caravela quinhentista que é cabo da Boa-Esperança Ouro, canela, marfim florete de espadachim bastidor, passo de dança Columbina e Arlequim passarola voadora pára-raios, locomotiva barco de proa festiva alto-forno, geradora ...
Fio de vida Já fiz mais do que podia Nem sei como foi que fiz. Muita vez nem quis a vida a vida foi quem me quis. Para me ter como servo? Para acender um tição na frágua da indiferença? Para abrir um coração no fosso da inteligência? Não sei, nunca vou saber. Sei que de tanto me ter, acabei amando a vida. Vida que anda por um fio, diz quem sabe. Pode andar, contanto (vida é milagre) que bem cumprido o meu fio. Thiago de Mello Para desanuviar do TÊ e do RUI e a pedido de várias familias.
Trovas Vicentinas Carlos Tê / Rui Veloso Vós que vos ides por ganância Debaixo da capa do cruzado Buscando no incerto e na distância A mina delirante do el dourado Vós que deixais só na rectaguarda Um farto giniceu desamparado Não sentis testa que vos arda Durante o sono repousate do soldado Ouvi este lado trovador Por feitos de além - mar pouco tentado Não se deixa uma esposa sem amor Com o trevo da mocidade eriçado E vê-las no poleiro das janelas Gastando seus furores em vãs intrigas É vê-las nas ribeiras com as barrelas Contando oq ue só deus sabe às amigas Quanta malícia mal ardida Tangem seus olhares pelas esquinas Soubesseis os sorrisos de fugida Que delas merecem minhas rimas E vieis que melhor que a riqueza É ter alguém à noite na cama Que o diga a presunçosa e vã nobreza Que goza a especiaria ao pé da dama Por isso se as testas vos ardem No lume verrinoso do adultério Às línguas viperinas que vierem Dizei que ardem pela grandeza do i...
Mulher De Armas Carlos Tê / Rui Veloso O meu amor Quando se foi Pela barra desse rio Disse que vinha Mas não veio mais Trocou-me por um navio Ao meu amor Não lhe perdôo Com ele não me ter levado Sou mulher de armas Queria ver mundo Conquistá-lo ao seu lado Aqui estou eu viúva e orfã Meu destino é carpir O dele é nobre Navega e descobre E eu nada tenho a descobrir O meu amor Onde está ele Trocou-me por uma quimera É um mundo de homens A fazer a guerra E de mulheres sempre à espera Ao meu amor Mando lembranças Quando sózinha me deito Queria amar outro Mas partiram todos Não ficou nenhum de jeito Refrão Meu coração Como estás tu Trocado por um convés Vê minhas armas Já se calaram E tu perdeste outra vêz Quando me lembro Como tu eras Mais largo do que esse mar O amor que tinha Dei-o à toa A quem o queria agarrar Refrão
Praia Das Lágrimas Carlos Tê / Rui Veloso Ó mar salgado eu sou só mais uma Das que aqui choram e te salgam a espuma Ó mar das trevas que somes galés Meu pranto intenso engrossa as marés Ó mar da indía lá nos teus confins De chorar tanto tenho dores nos rins Choro nesta areia salina será Choro toda a noite séco de manhã Ai ó mar roxo ó mar abafadiço Poupa o meu homem não lhe dês sumiço Que sol é o teu nesses céus vermelhos Que eles partem novos e retornam velhos Ó mar da calma ninho do tufão Que é do meu amor seis anos já lá vão Não sei o que os chama aos teus nevoeiros Será fortuna ou bichos-carpinteiros Ó mar da china samatra e ceilão Não sei que faça sou viúva ou não Não sei se case notícias não há Será que é morto ou se amigou por lá
Calmaria Carlos Tê / Rui Veloso Foi medonha a tempestade que a agulha quase enlouquecia Era tal o negrume do céu que não havia noite nem dia Já eu pensava na morte fez-se súbita acalmia Que nos deixou à sorte sem vento na maresia Relembrei velhos pilotos relatos destas andanças Piores que certos maremotos às vezes só certas bonanças Reparamos os danos nas velas que o vento havia de chegar Mas foram passando os dias e nós sem nada mais a inventar E era medonha a calmaria Segui o vôo de albatroz fisguei peixe-voador Cantei para ouvir a minha voz recapitulei cada amor Li a noite constelada na folha do firmamento Vi a várzea azul semeada de àguas sem movimento A mando do capitão fizemos procissão Missa e novena cantada pescamos um tubarão E depois de o cegar no convés com ele fizemos tourada Mas do vento de feição é que ninguém sabia de nada E era medonha a calmaria Quase a dez dias de pasmo no alto mar sem aragem Com o sol tisnando a prumo pus fim à minha v...
Faena De Mar Carlos Tê / Rui Veloso Fiz-me à estrada de lisboa sem um chavo na algibeira queria aprender um ofício e fazer uma carreira Vindo do ribatejo lá onde o touro se pega Picado pela fome e a fugir da peste negra Ao fim de três semanas vivia de caridade Com a turma de mendigos que pedia pela cidade Ouvi lêr um edital na rua dos tintureiros A pedir gente de brega soldados e marinheiros Pelo soldo pela comida sem medo de ir à aventura Era mesmo essa a vida de que eu vinha à procura Ao passar no cais de alfama vi grandes preparativos Dei o nome ao escrivão e juntei-me aos efectivos Aguenta toureiro ensaia a tua faena O touro é sendeiro e escorrega muito a arena Toureia o destino improvisa a tua finta É sobre o joelho que melhor se tira a pinta Veio o dia da largada ondulavam os pendões Faltava gente à armada tiveram de ir às prisões Arrebanhar voluntários entre a nata da escumalha Rufiões e salafrários grandes barões da navalha Havia choro no c...
Cruzeiro Do Sul Carlos Tê / Rui Veloso Sou um pobre timoneiro Na noite imensa do mar A sul da minha solidão o cruzeiro Luz no céu para me guiar Lanterna de navegar Alivia-me a pressão Que o leme está a queimar Estamos longe do destino E eu não sei onde é que isto vai parar Cruzeiro do sul Lua não troces de mim Tão longe de casa eu sei O medo dança com as sombras E eu vejo o que inaginei Estou sózinho junto ao leme Não é tempo de poetas Já tombaram mais de dez E nós ainda aqui às voltas Procurando coisas que deus não fez Cruzeiro do sul
Canção De Marinhar Carlos Tê / Rui Veloso Tome-se o astrolábio, meça-se a latura solar Dê-se mais grau menos grau, conforme o balanço do mar Imaginem-se latitudes invisíveis meridianos Que a lenta ciência se apure nos astros e nos oceanos Rume-se ao sul sidério e às indias orientais Complete-se o planisfério com todos os novos locais Proceda-se sempre de acordo como manda o regimento Fazendo um diário de bordo por causa do esquecimento Já conheço o sete-estrêlo que me guia e orienta Hei-de vêr esses bazares de canela e de pimenta Anote-se boca de rio cabo maré e monção Costume de gente e feitio tudo fique em relação E mais o que o medo inventar que o senso há-de aclarar Assim se descreva e reúna em livro de marinhar Ao mundo ache-se o centro tire-se até bissectriz Navegue-se por fora e por dentro como se fosse um país Alterem-se as dimensões nas cartas e nos roteiros Até que ele caiba nas canções dos cafés de marinheiros Já não oiço as sereias j...