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Arma secreta

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dipara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.


António Gedeão, Poesias Completas

Creio nos anjos que andam pelo mundo

creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. amém.


Natália Correia

Poema para uma ideia de tempo

Sabes do peso das folhas
quando caem
no Outono
Sabes das cinzas
que sobem pelo céu
da boca do vulcão que acordou

Tens a pintura dos anos
No corpo que envelhece
Todo o teu corpo
Entre a vida e a morte
Entre o início e o fim
Entre mar
Mundo
Universo

Sabes do Big-Bang
e do espaço que se expande
Sabes de uma teoria
e de buracos negros
e cordas

Sabes da areia que se esvai no diminuto aperto da ampulheta

Sabes do ritmo da música
e de ondas que andam os oceanos

O evaporar do poema

A história
Dos homens
De nascimentos, mulheres
Paixões que se imortalizam em deixas de teatro
Ódios, que criam guerras
Que criam lágrimas
Nos olhos do soldado que é abatido na trincheira
em mil novecentos e dezassete

Sabes também que a tua voz é como uma folha de Outono
E que um poema tem apenas a eternidade dos olhos de quem o lê.


Pedro de Mendoza

Dois poetas, o mesmo mote

Descalça vai pera a fonte

Descalça vai pera a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de camalote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa, e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entraçado,
Fita de cor encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa, e não segura.
Luís de Camões
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Poema da auto-estrada

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.
Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.
Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela …

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem sorte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada...a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, Livro de Mágoas
...
Fez-se de espanto o mar da minha vida
Súbito
tempestuoso

no nascimento e na morte
na sublime e imprevisível luz do amanhecer
nas estrelas da noite
velhas de milhões e milhões de anos

Fez-se de vento
Agora suave e depois mortal
Como o passar do tempo
Varrendo o Universo negro absoluto

O vento criador de ondas
Que dançam na superfície dos oceanos
Dançam no início e no fim das coisas
Na brisa que abraça a manhã
Na ideia de amor
E na esperança para lá do fim

Fez-se o meu corpo
como uma onda na praia
apenas um momento na vida do Universo


Pedro de Mendoza
As musas cegas, VII

Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve -
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.
Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo -
um novo instrumento rodeado pelas campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no …
ODA AL CALDILLO DE CONGRIO

EN el mar
tormentoso
de Chile
vive el rosado congrio,
gigante anguila
de nevada carne.
Y en las ollas
chilenas,
en la costa,
nació el caldillo
grávido y suculento,
provechoso.
Lleven a la cocina
el congrio desollado,
su piel manchada cede
como un guante
y al descubierto queda
entonces
el racimo del mar,
el congrio tierno
reluce
ya desnudo,
preparado
para nuestro apetito.
Ahora
recoges
ajos,
acaricia primero
ese marfil
precioso,
huele
su fragancia iracunda,
entonces
deja el ajo picado
caer con la cebolla
y el tomate
hasta que la cebolla
tenga color de oro.
Mientras tanto
se cuecen
con el vapor
los regios
camarones marinos
y cuando ya llegaron
a su punto,
cuando cuajó el sabor
en una salsa
formada por el jugo
del océano
y por el agua clara
que desprendió la luz de la cebolla,
entonces
que entre el congrio
y se sumerja en gloria,
que en la olla
se aceite,
se contraiga y se impregne.
Ya sólo es necesario
dejar en el manjar
caer la crema
como una rosa espesa,
y al fuego
lentamente
entregar el tesoro
hasta que en el caldillo
se …
Não basta abrir a janela


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Entre o que vejo de um campo e o que vejo de o…
"Greguerías" sobre as Cidades

Nerviosismo de la ciudad: no poder abrir el paquetito de azúcar para el café.
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Venecia es el sitio en que navegan los violines.
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Muelle: rúbrica del acero.
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El Coliseo en ruinas es como una taza rota del desayuno de los siglos.
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Entre los carriles de la vía del tren crecen las flores suicidas.
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Lo que más duerme en la noche son las torres.
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La mañana está llena de turistas buscando casas de cambio.
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Los invernaderos son las cárceles modelos de las plantas.
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Los arcos de triunfo son elefantes petrificados.
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El obelisco es la palmatoria de los siglos.
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Al oír la sirena parece que el barco se suena la nariz.
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Hay una campana que suena en el alba y que no está en ningún campanario.
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Al pasar un barco entre dos casas, parece un barco de teatro entre bastidor y bastidor.
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"Greguerías" sobre Animais

Un chino inventó al gato.
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El langostino huele a todo el mar.
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Nutria: una rata con gabán de señora.
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Lo que más denigra al perro ?y él lo sabe? es el rascarse la cabeza con la pata de atrás.
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La lagartija es el broche de las tapias.
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Todos los pájaros son mancos.
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Búho: gato emplumado.
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El murciélago vuela con la capa puesta.
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Los cuervos se tiñen.
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La mosca se posa sobre lo escrito, lo lee y se va como despreciando lo que ha leído. ¡Es el más exigente crítico literario!
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Los cocodrilos están siempre en pleno concurso de bostezos.
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La serpiente mide el bosque para saber cuántos metros tiene y decírselo al ángel de las estadísticas.
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El camello tiene cara de cordero jorobado.
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La inmortalidad del cangrejo consiste en andar hacia atrás, rejuveneciéndose hacia…
Greguerías sobre o Amor


Como daba besos lentos duraban más sus amores.
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A veces un beso no es más que chewing gum compartido.
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La reja es el teléfono de más corto hilo para hablar de amor.
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Amor es despertar a una mujer y que no se indigne.
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Daba besos de segunda boca.
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El primer beso es un robo.
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Cuando una mujer te plancha la solapa con la mano ya estás perdido.
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Cuando la mujer pide ensalada de frutas para dos perfecciona el pecado original.
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El amor nace del deseo repentino de hacer eterno lo pasajero.
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En la manera de matar la colilla contra el cenicero se reconoce a la mujer cruel.
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Aquella mujer me miró como a un taxi desocupado.
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Hay matrimonios que se dan la espalda mientras duermen para que el uno no le robe al otro los sueños ideales.
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Si os tiembla la cerilla al dar lumbre a una mujer, estáis perd…
Ramón Gómez de la Serna

Greguerías


Con el monóculo, el ojo se vuelve reloj.
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Carterista: caballero de la mano en el pecho... de otro.
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Los presos a través de la reja ven la libertad a la parrilla.
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La raya del pelo es feliz.
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La cabeza es la pecera de las ideas.
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Al ombligo le falta el botón.
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Franklin salía los días de tormenta con un paraguas dotado de pararrayos
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Las patillas son los galones de sargento de la cara.
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Los bostezos son oes que huyen.
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Al pobre botánico no le quedan sino las papeletas de empeño de los árboles.
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El apuntador es el eco antes que la palabra.
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Los pellizcos estrangulan lunares.
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El estornudo es la interjección del silencio.
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El que juega dados parece tirar al aire los huesos que le sobran.
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Las pulseras representan esclavitudes muertas.
________________…
Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade
Trova do Vento que Passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
Ode a Eros


Eros, Cupido, Amor, pequeno Deus travesso
Com quem todos brincamos!
Brincando nos ferimos,
Ferindo-nos gozamos,
Se rimos já choramos,
Mal que choramos rimos...
Já, voltados do avesso,
Por igual o voltamos,
O torturamos nós como ele nos tortura,
Descemos aos recessos da criatura...

Pequenino gigante!
Sonhava, ou não sonhava,
Quem te representou risonho e pequenino
Que de Hércules a clava
Não pesa como pesa a tua mão de infante,
Nem seu furor destrói
Como nos dói
Teu riso de menino?

Nas tuas leves setas
Nas flâmulas gentis
Que cantam os poetas
E os namorados juvenis,
Que longos ópios e letais licores,
Que pântanos de lodo e que furores,
Que grinaldas de louros e de espinhos,
Que abissais labirintos de caminhos!

Mascarilha de seda e de veludo
Sob a qual o olhar brilha, a boca ri,
Que olhar ambíguo ou mudo,
Que boca atormentada
Não terás além ti
Na mascarada?

Pai da Crueldade e da Piedade,
Filho do Crime e da Beleza,
Que infante serás tu, que, desde que há Idade,
Aos Ícaros opões a mesma astral parede,
E os Lázaro…
A fome de Camões

Este vulto, portanto, que caminha
Altas horas, ao frio das nortadas,
É Camões que se definha
Nas ruas de Lisboa abandonadas.
É Camões que a sorte vil, mesquinha,
Faz em noites de fome torturadas,
Ele o velho cantor de heróis guerreiros!...
Vagar errante como os vis rafeiros.
Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
O seu amparo e seu bordão no mundo,
Morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
No seu vácuo deixando um vácuo fundo.
Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo,
Faminto, abandonado e vagabundo,
Tenta esmolar também pelas esquinas.
Ó lágrimas!... Ó glória! Ó ruínas!...

Gomes Leal, A fome de Camões
Estigma
Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.

José Carlos Ary dos Santos
Carlos Tê / Rui Veloso


Andava eu na quarta classe e fiz uma redacção
Sobre o que eu queria ser um dia quando crescesse

Quero ser um marinheiro, sulcar o azul do mar
Vaguear de porto em porto até um dia me cansar
Quero ser um saltimbanco, saber truques e cantigas
Ser um dos que sobe ao palco e encanta as raparigas

A sessôra chamou-me ao palco e deixou-me descomposto
Ó menino atolombado, que gracinha de mau gosto
Lá fiz outra redacção, quero ser um funcionário
Ser zeloso ter patrão, deitar cedo e ter horário
Ser um barquinho apagado sem prazer em navegar
Humilde e bem comportado sem fazer ondas no mar

A sessôra bateu palmas e deu-me muitos louvores
Apontou-me como exemplo e passou-me com quinze valores
o dia de amanhã

Um dia encontrarei uma porta no caminho
que se abrirá com estrondo,
apesar de eu não sonhar ser um cavaleiro andante
nem andar pela noite escura.

Provavelmente não será a porta de nenhum palácio.
Não terá história essa porta.

Talvez possa descansar da viagem da vida diante dessa porta
talvez parar um pouco depois de todos os passos
tantos caminhos
os percorridos e os não percorridos.
Aí, em face da possibilidade
de todas as possibilidades próprias do que é desconhecido
o corpo regenerará.
uma nova vitalidade embriagará o corpo mutilado de tempo.

Diante dessa porta talvez o corpo receba um futuro
perante a hipótese de escolha talvez o homem que então for eu
seja verdadeiramente
talvez um dia quando descansar em frente a uma porta que se abre para o dia de amanhã.

Pedro de Mendoza