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Para o João Henrique Magalhães

AMIGOS!Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências?
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora…
A Sílaba

Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa,é certo:uma vogal,

uma consoante,quase nada.

Mas faz-me falta.Só eu sei

a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender

do frio de janeiro,da estiagem

do verão.Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

de Ofício de Paciência

Eugénio de Andrade
A Funda

Arranquei à pele do peito,
com os dedos ensangüentados,
um retângulo perfeito
de cem centímetros quadrados.

Estendi-o ao sol a curtir
a haurir uns raios que projetam
certo incógnito elixir
que os detectares não detectam.

Depois de bem seco e rijo
prendi-lhe, nos quatros cantos,
quatro nervos desses tantos
com que me franjo e me aflijo.

Eis-me de funda na mão
no mais ereto dos montes,
devassando os horizontes
com os pés bem presos no chão,
as pernas em ângulo agudo
para assentar com firmeza
nessa dúvida de tudo
tão certa como a certeza.

Só, entre os fundibulários,
no centro dos meus domínios,
como o pastor dos Hermínios
na defesa dos contrários,
ponho na funda um poema
de agrestes arestas vivas,
e em rotações sucessivas
de celeridade extrema,
com todo o vigor do braço,
como o vento em torvelinho,
lanço o poema no espaço
no seu exato caminho.

António Gedeão
Take This Waltz

Now in Vienna there's ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning
And it hangs in the Gallery of Frost
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz with the clamp on its jaws
Oh I want you, I want you, I want you
On a chair with a dead magazine
In the cave at the tip of the lily
In some hallways where love's never been
On a bed where the moon has been sweating
In a cry filled with footsteps and sand
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take its broken waist in your hand

This waltz, this waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea

There's a concert hall in Vienna
Where your mouth had a thousand reviews
There's a bar where the boys have stopped talking
They've been sentenced to de…
Um poema para o dia de ontem

Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexactas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh! não se esqueçam
Da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima
Rosa hereditária
A rosa radioactiva
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atómica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vínicos de Morais
Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

José Carlos Ary dos Santos
Ecloga

Sonhei
contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.

Nuno Júdice
A Boneca

Deixando a bola e a peteca
 Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: "É minha!"
? "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
 E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
oltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca...

Olavo Bilac
O sol já se escondeu

O sol já se escondeu...
Precisamente quando,
feliz,
eu desatei a cantar.
(Só por feliz eu cantei).

Agora quero acabar,
que já me dói a garganta,
mas vou ainda cantando,
tremendo
dar por mim de novo triste
assim que esteja calado.
(...Como se a minha Alegria
nascesse de eu ter cantado).

Sebastião da Gama
SONETO DO CATIVO


Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão Ferreira,
in Os Quatro Cantos do Tempo

Imagem
O que é que eu posso dizer sobre o desaparecimento desta grande Senhora?
Nada. Para para além do que ela própria foi dizendo ao longo da sua obra.
"A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse"
De Volta ao Carlos Tê e ao Rui Veloso

Trovas Vicentinas

Vós que vos ides por ganância
Debaixo da capa do cruzado
Buscando no incerto e na distância
A mina delirante do el dourado

Vós que deixais só na rectaguarda
Um farto giniceu desamparado
Não sentis testa que vos arda
Durante o sono repousate do soldado

Ouvi este lado trovador
Por feitos de além - mar pouco tentado
Não se deixa uma esposa sem amor
Com o trevo da mocidade eriçado

E vê-las no poleiro das janelas
Gastando seus furores em vãs intrigas
É vê-las nas ribeiras com as barrelas
Contando oq ue só deus sabe às amigas

Quanta malícia mal ardida
Tangem seus olhares pelas esquinas
Soubesseis os sorrisos de fugida
Que delas merecem minhas rimas

E vieis que melhor que a riqueza
É ter alguém à noite na cama
Que o diga a presunçosa e vã nobreza
Que goza a especiaria ao pé da dama

Por isso se as testas vos ardem
No lume verrinoso do adultério
Às línguas viperinas que vierem
Dizei que ardem pela grandeza do império
À vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfa-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia,
A gente esquece sempre o bom de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!

Florbela Espanca
Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos

como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam
como estas árvores que gritam
em bebedeiras de azul

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento
bichinho alacre e sedento
de focinho pontiagudo
que fuça através de tudo
no perpétuo movimento


Eles não sabem que o sonho
é tela é cor é pincel
base, fuste ou capitel
arco em ogiva, vitral

Pináculo de catedral
contraponto, sinfonia
máscara grega, magia
que é retorta de alquimista

mapa do mundo distante
Rosa dos Ventos Infante
caravela quinhentista
que é cabo da Boa-Esperança

Ouro, canela, marfim
florete de espadachim
bastidor, passo de dança
Columbina e Arlequim

passarola voadora
pára-raios, locomotiva
barco de proa festiva
alto-forno, geradora

cisão do átomo, radar
ultra-som, televisão
desembarque em fo…
Fio de vida

Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.

Thiago de Mello

Para desanuviar do TÊ e do RUI e a pedido de várias familias.
Trovas Vicentinas
Carlos Tê / Rui Veloso

Vós que vos ides por ganância
Debaixo da capa do cruzado
Buscando no incerto e na distância
A mina delirante do el dourado

Vós que deixais só na rectaguarda
Um farto giniceu desamparado
Não sentis testa que vos arda
Durante o sono repousate do soldado

Ouvi este lado trovador
Por feitos de além - mar pouco tentado
Não se deixa uma esposa sem amor
Com o trevo da mocidade eriçado

E vê-las no poleiro das janelas
Gastando seus furores em vãs intrigas
É vê-las nas ribeiras com as barrelas
Contando oq ue só deus sabe às amigas

Quanta malícia mal ardida
Tangem seus olhares pelas esquinas
Soubesseis os sorrisos de fugida
Que delas merecem minhas rimas

E vieis que melhor que a riqueza
É ter alguém à noite na cama
Que o diga a presunçosa e vã nobreza
Que goza a especiaria ao pé da dama

Por isso se as testas vos ardem
No lume verrinoso do adultério
Às línguas viperinas que vierem
Dizei que ardem pela grandeza do império
Mulher De Armas
Carlos Tê / Rui Veloso

O meu amor
Quando se foi
Pela barra desse rio
Disse que vinha
Mas não veio mais
Trocou-me por um navio

Ao meu amor
Não lhe perdôo
Com ele não me ter levado
Sou mulher de armas
Queria ver mundo
Conquistá-lo ao seu lado

Aqui estou eu viúva e orfã
Meu destino é carpir
O dele é nobre
Navega e descobre
E eu nada tenho a descobrir

O meu amor
Onde está ele
Trocou-me por uma quimera
É um mundo de homens
A fazer a guerra
E de mulheres sempre à espera

Ao meu amor
Mando lembranças
Quando sózinha me deito
Queria amar outro
Mas partiram todos
Não ficou nenhum de jeito

Refrão

Meu coração
Como estás tu
Trocado por um convés
Vê minhas armas
Já se calaram
E tu perdeste outra vêz

Quando me lembro
Como tu eras
Mais largo do que esse mar
O amor que tinha
Dei-o à toa
A quem o queria agarrar

Refrão
Praia Das Lágrimas
Carlos Tê / Rui Veloso


Ó mar salgado eu sou só mais uma
Das que aqui choram e te salgam a espuma

Ó mar das trevas que somes galés
Meu pranto intenso engrossa as marés

Ó mar da indía lá nos teus confins
De chorar tanto tenho dores nos rins

Choro nesta areia salina será
Choro toda a noite séco de manhã

Ai ó mar roxo ó mar abafadiço
Poupa o meu homem não lhe dês sumiço

Que sol é o teu nesses céus vermelhos
Que eles partem novos e retornam velhos

Ó mar da calma ninho do tufão
Que é do meu amor seis anos já lá vão

Não sei o que os chama aos teus nevoeiros
Será fortuna ou bichos-carpinteiros

Ó mar da china samatra e ceilão
Não sei que faça sou viúva ou não

Não sei se case notícias não há
Será que é morto ou se amigou por lá



Calmaria
Carlos Tê / Rui Veloso

Foi medonha a tempestade que a agulha quase enlouquecia
Era tal o negrume do céu que não havia noite nem dia
Já eu pensava na morte fez-se súbita acalmia
Que nos deixou à sorte sem vento na maresia
Relembrei velhos pilotos relatos destas andanças
Piores que certos maremotos às vezes só certas bonanças
Reparamos os danos nas velas que o vento havia de chegar
Mas foram passando os dias e nós sem nada mais a inventar

E era medonha a calmaria

Segui o vôo de albatroz fisguei peixe-voador
Cantei para ouvir a minha voz recapitulei cada amor
Li a noite constelada na folha do firmamento
Vi a várzea azul semeada de àguas sem movimento
A mando do capitão fizemos procissão
Missa e novena cantada pescamos um tubarão
E depois de o cegar no convés com ele fizemos tourada
Mas do vento de feição é que ninguém sabia de nada

E era medonha a calmaria

Quase a dez dias de pasmo no alto mar sem aragem
Com o sol tisnando a prumo pus fim à minha viagem
Tão farto de calmaria pus …
Faena De Mar
Carlos Tê / Rui Veloso


Fiz-me à estrada de lisboa sem um chavo na algibeira queria aprender um ofício e fazer uma carreira
Vindo do ribatejo lá onde o touro se pega
Picado pela fome e a fugir da peste negra

Ao fim de três semanas vivia de caridade
Com a turma de mendigos que pedia pela cidade
Ouvi lêr um edital na rua dos tintureiros
A pedir gente de brega soldados e marinheiros

Pelo soldo pela comida sem medo de ir à aventura
Era mesmo essa a vida de que eu vinha à procura
Ao passar no cais de alfama vi grandes preparativos
Dei o nome ao escrivão e juntei-me aos efectivos

Aguenta toureiro ensaia a tua faena
O touro é sendeiro e escorrega muito a arena
Toureia o destino improvisa a tua finta
É sobre o joelho que melhor se tira a pinta

Veio o dia da largada ondulavam os pendões
Faltava gente à armada tiveram de ir às prisões
Arrebanhar voluntários entre a nata da escumalha
Rufiões e salafrários grandes barões da navalha

Havia choro no cais e despedidas sem fim
E eu triste e…